De Pelé à Lei do Ney. Existe uma CBF no meio do caminho
O futebol é paixão nacional. A Seleção Brasileira conquistou muitas gerações de brasileiros e se tornou a majestade desse esporte inigualável, guiada pelo Rei do Futebol, Pelé, e seus discípulos. O mundo aprendeu a amar o Brasil através do futebol arte. Fomos nós que definimos que a perfeição veste a camisa 10. A Copa do Mundo e o escrete canarinho são algo indissociável, como o samba e o passo.
Falar do passado da nossa Seleção é fácil, renderia as melhores crônicas possíveis: dias históricos, afetos memoráveis, jogadas inesquecíveis, gols de ouro, estrelas costuradas na camisa e orgulho no peito. Ainda mais para a minha geração, que viu craques do goleiro ao ponta-esquerda. Amor à camisa e à nação. Heróis com a taça nas mãos que, minimamente, redimiam as dores do povo brasileiro contra o duro cotidiano, de onde saíram muitos selecionáveis.
A verdade é que, há algum tempo, houve um divórcio entre a Seleção do Brasil — ou, como alguns rebatizaram: “a Seleção da CBF”. E aqui reside o mal maior do nosso futebol. Problemas estruturais da CBF, seus cartolas, federações e dirigentes de clubes. Guiados pela sede de poder e dinheiro, contaminaram o futebol-arte. Na era em que o esporte mais popular do globo atingiu cifras bilionárias, temos empresários, jogadores e cartolas milionários; em contrapartida, clubes falidos.
A bancarrota dos clubes levou à falência do futebol arte. Colonizaram nossas divisões de base com a maioria dos jogadores “formados” tipo exportação para o futebol europeu. Não existe mais planejamento, identidade própria de jogo, calendário profissional, investimento em arbitragem e na infraestrutura do futebol. O mercantilismo domina; a sanha de fazer dinheiro rápido para cobrir os rombos dos clubes com elencos cada vez mais caros e pouquíssimo talento é a bola da vez. Os jogadores que vingam brilham nos clubes europeus. Mas mal sabemos em quais clubes eles foram formados no Brasil. A falta de identificação com a pátria de chuteiras é real. A revelação de novos talentos passa por uma produção em série, semelhante a uma granja, e torcemos para que nasçam novos Galinhos de Quintino, Anjos das Pernas Tortas, Fenômenos, dentre outros. Pura ilusão.
Vale a lei do Ney. Ou seja, o que se pode lucrar em detrimento do interesse coletivo. Não por acaso, desde a geração Neymar, de forma mais aguda, a Seleção é tudo, menos um time de futebol preparado para disputar uma Copa do Mundo dignamente — muito menos vencê-la. O Brasil começou a perder a Copa de 2026 bem antes da convocação de Carlo Ancelotti; no entanto, perdeu a dignidade quando “forças maiores” armaram um picadeiro para anunciar que o “menino Ney” estava convocado. E a primeira atitude dele foi comemorar no story do Instagram, devidamente patrocinado por uma Bet. Afinal, é preciso faturar!
Entre o Brasil de Pelé e o de Neymar, existe a CBF no meio do caminho. De tal modo que ou se muda a rota, profissionaliza-se de verdade o futebol brasileiro sem perder o amadorismo do futebol-arte dentro de campo — que dominou o mundo até o início deste século —, ou seremos coadjuvantes em Copas do Mundo, representados por estrangeiros nascidos no Brasil, sem o DNA do verdadeiro país do futebol.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino
