CÂNDIDO SALES: ENTRE O RIO PARDO, A RIO–BAHIA E A CONSTRUÇÃO DO SUDOESTE BAIANO
O território e a formação de uma cidade de passagem
Sempre me impressionou como algumas cidades nascem da força da terra, enquanto outras surgem do encontro entre os caminhos e as pessoas. Cândido Sales pertence a essa segunda categoria.
Sua história está profundamente ligada às estradas, ao comércio, à pecuária e ao movimento constante de quem cruzava o sudoeste baiano em direção ao Sudeste do país.
Localizado no Território de Identidade Sudoeste Baiano, o município ocupa uma posição estratégica na divisa entre Bahia e Minas Gerais. Com população em torno de 24 mil habitantes, Cândido Sales tornou-se uma importante porta de entrada da Bahia para quem percorre a BR-116, antiga Rodovia Rio–Bahia, uma das principais vias de integração nacional.
Muito antes da emancipação política, entretanto, essa era uma região de fazendas, rios e caminhos utilizados por tropeiros, criadores de gado e comerciantes que ajudaram a integrar o interior baiano ao restante do país.
Antes da cidade: sertão, fazendas e caminhos do gado
Antes da chegada dos colonizadores, o território era habitado por povos indígenas pertencentes ao tronco Macro-Jê, especialmente grupos conhecidos como Mongoiós e Pataxós, que ocupavam extensas áreas do sudoeste baiano.
A ocupação luso-brasileira intensificou-se durante a segunda metade do século XIX. A expansão da pecuária fez surgir grandes propriedades rurais ao longo do Rio Pardo, cuja oferta permanente de água favorecia a criação de gado e a fixação de fazendas.
Foi nesse contexto que nasceu o povoado de Porto de Santa Cruz.
O nome não era casual. O Rio Pardo funcionava como importante ponto de travessia para boiadas, tropeiros e viajantes que percorriam o interior baiano. Ali desenvolveu-se um pequeno núcleo comercial destinado ao abastecimento das fazendas da região.
Durante décadas, a economia esteve baseada na pecuária extensiva, na agricultura de subsistência e nas relações comerciais estabelecidas entre o sertão baiano e o norte de Minas Gerais.
De Porto de Santa Cruz a Nova Conquista
A evolução administrativa da localidade acompanhou seu crescimento econômico.

Em 1943, a sede distrital foi transferida para o antigo Porto de Santa Cruz, que passou a chamar-se Quaraçu.
Poucos anos depois, em 1954, uma nova mudança administrativa levou a sede do distrito para o povoado de Nova Conquista, núcleo urbano que rapidamente se consolidava como centro comercial da região.
O próprio nome “Nova Conquista” expressava o sentimento de expansão e esperança que marcava aquele momento histórico.
A cidade crescia impulsionada pelo aumento da circulação de pessoas, pela expansão do comércio e pela melhoria das condições de transporte.
A estrada que mudou o destino da cidade
Se existe um acontecimento capaz de explicar a transformação econômica de Cândido Sales, esse acontecimento foi a construção da Rodovia Rio–Bahia, atual BR-116.
Até então, os deslocamentos eram lentos e difíceis. O transporte dependia de antigas estradas de terra, percorridas por tropas de burros, carros de boi e caminhões que enfrentavam enormes dificuldades durante o período das chuvas.

A abertura da rodovia modificou completamente essa realidade.
Pela primeira vez, o sudoeste baiano passou a integrar-se de forma mais rápida aos mercados consumidores do Sudeste brasileiro.
A construção da ponte sobre o Rio Pardo completou essa transformação.
Antes dela, a travessia era limitada pelas condições do rio e frequentemente interrompida durante as cheias. Com a ponte, pessoas, mercadorias e investimentos passaram a circular com maior intensidade.
Nova Conquista deixou de ser apenas um pequeno povoado rural para transformar-se em importante ponto de apoio aos viajantes, caminhoneiros e comerciantes que percorriam uma das principais rodovias do Brasil.
A cidade cresceu ao ritmo da estrada.
A luta pela emancipação
O desenvolvimento econômico fortaleceu também o desejo de autonomia política.
Após as eleições de 1958, intensificou-se o movimento emancipacionista, liderado por importantes lideranças locais, entre elas Gerson Sales, que contou com o apoio do deputado estadual Orlando Spínola.
O objetivo era claro: transformar Nova Conquista em município independente de Vitória da Conquista.
O esforço foi bem-sucedido.
Em 5 de julho de 1962, por meio da Lei Estadual nº 1.703, sancionada pelo governador Juracy Magalhães, foi criado o município de Cândido Sales.

A instalação oficial da Prefeitura e da Câmara Municipal ocorreu em 7 de abril de 1963, quando tomou posse o primeiro prefeito, Luís Lopes Ferrá de Oliveira.
A emancipação representou o reconhecimento de uma cidade que já possuía identidade econômica e social própria.
Quem foi Cândido Sales?
O município recebeu seu nome em homenagem a Cândido Sales, importante proprietário rural cuja atuação esteve ligada ao processo de ocupação e desenvolvimento daquela região do sudoeste baiano.
Embora a documentação histórica sobre sua biografia seja relativamente escassa, sabe-se que suas propriedades exerceram papel relevante na formação do antigo povoado e na expansão das atividades agropecuárias locais.
Como ocorreu em diversos municípios baianos, a homenagem traduz o reconhecimento à contribuição de uma personalidade que participou diretamente da construção econômica da região.
Mais do que um grande fazendeiro, Cândido Sales representa uma geração de pioneiros responsáveis pela ocupação produtiva do interior baiano durante os séculos XIX e XX.
Seu nome permanece associado à própria identidade do município.

A economia entre o campo e a rodovia
A economia de Cândido Sales continua fortemente ligada ao setor agropecuário.
A pecuária de corte permanece como uma das principais atividades econômicas, aproveitando as extensas áreas de pastagens existentes no município.
A agricultura também ocupa posição importante, destacando-se o cultivo de café, feijão, milho, mandioca e outras culturas adaptadas às condições climáticas do sudoeste baiano.
Nos últimos anos, o comércio e os serviços ganharam maior participação na economia local.
A localização às margens da BR-116 favoreceu o surgimento de hotéis, restaurantes, postos de combustíveis, oficinas mecânicas e diversos empreendimentos voltados ao atendimento do intenso fluxo rodoviário.
Essa combinação entre produção rural e economia de serviços confere ao município características bastante particulares dentro do Sudoeste baiano.
Entre a memória e o futuro
A história de Cândido Sales revela como as grandes transformações nacionais também se constroem nos pequenos municípios do interior.
O antigo Porto de Santa Cruz tornou-se Quaraçu.
Quaraçu deu lugar à Nova Conquista.
Nova Conquista transformou-se em Cândido Sales.
Cada mudança de nome correspondeu a uma nova etapa de desenvolvimento.
Primeiro vieram as fazendas.
Depois, o comércio.
Em seguida, a estrada.
Por fim, a emancipação política.

Hoje, Cândido Sales permanece como importante elo entre a Bahia e o Sudeste brasileiro, preservando sua vocação agropecuária e sua condição de cidade de passagem, acolhimento e trabalho.
Ao homenagear Cândido Sales, o município preserva a memória daqueles pioneiros que ajudaram a ocupar, produzir e integrar uma das regiões mais importantes do interior baiano.
Sua história demonstra que o desenvolvimento não nasce apenas das grandes capitais.
Ele também floresce nas margens dos rios, nas estradas que unem diferentes regiões e na determinação de comunidades que acreditam na força do próprio território.
Josias Gomes
Engenheiro Agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
