PERIGO DE UMA HISTÓRIA ÚNICA: O NORDESTE QUE O BRASIL NÃO APRENDEU A CONHECER
Há livros que contam uma história. Há outros que nos obrigam a perguntar quem contou essa história, de onde falou o narrador e, sobretudo, o que ficou de fora.
É nessa segunda categoria que situo Só Sei Que Foi Assim — A trama do preconceito contra o povo do Nordeste, de Octávio Santiago. O livro investiga a formação histórica dos estereótipos que associaram o Nordeste à pobreza, ao atraso e à ignorância. Octávio Santiago percorre a política, a literatura, a cultura popular, os meios de comunicação e as telenovelas para mostrar que essa imagem não surgiu espontaneamente: foi construída ao longo do tempo.
O livro pode ser lido, portanto, como uma investigação sobre o preconceito contra o povo nordestino, mas sua força vai além. Ao questionar os estereótipos construídos sobre o Nordeste, Santiago nos conduz a uma pergunta maior: como uma região tão decisiva para a formação do Brasil pôde ser reduzida, no imaginário de parte do país, à seca, à pobreza e ao atraso?
A pergunta encontra uma chave extraordinária na palestra “O Perigo de uma História Única”, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.
Chimamanda nos ensina que o problema dos estereótipos não é necessariamente serem falsos. É serem incompletos. Quando uma única narrativa é repetida tantas vezes, ela passa a ocupar o lugar da realidade inteira.
Foi assim também com o Nordeste.
A seca existe. A pobreza existe. As desigualdades históricas existem. Mas transformar essas realidades em explicação total de uma região é produzir uma história única. E uma história única, quando repetida por gerações, pode transformar-se em preconceito.
Há uma dimensão histórica importante nessa construção.
No início do século XX, aquilo que hoje reconhecemos como Nordeste ainda era frequentemente identificado como parte do Norte do país. A preocupação do Estado brasileiro com as grandes estiagens ajudou a conferir contornos políticos e administrativos específicos à região.
Em 1909, durante o governo de Nilo Peçanha, foi criada a Inspetoria de Obras Contra as Secas — IOCS, destinada a estudar e enfrentar, de maneira mais sistemática, os efeitos das estiagens. A iniciativa representava uma mudança importante: a seca começava a ser tratada não apenas como fatalidade natural, mas como questão de Estado. A instituição realizou levantamentos cartográficos, estudos científicos, perfuração de poços e construção de açudes, estradas e outras obras.

Mas, nos anos seguintes, a política de combate às secas entrou no centro de uma disputa política e regional. Em 1923, já no governo de Artur Bernardes, ocorreu um episódio particularmente importante para compreender a formação do discurso preconceituoso contra o Nordeste.
O presidente Artur Bernardes estimulou uma operação de imprensa destinada a examinar e divulgar a situação das obras federais realizadas na região. O personagem central dessa operação foi o médico sanitarista paulista Paulo de Moraes Barros, que realizou uma viagem de 32 dias pelo Nordeste e publicou no jornal O Estado de S. Paulo a série de artigos intitulada “Impressões do Nordeste”. A viagem teve o patrocínio da Sociedade Rural Brasileira, e uma documentação posterior registra que partiu do próprio presidente Artur Bernardes um telegrama urgente para que Paulo Moraes Barros realizasse a expedição e informasse o país sobre os investimentos feitos na região.

O tom das reportagens era fortemente negativo. O Nordeste aparecia como uma “terra do sofrimento”, e a população sertaneja era representada por imagens de miséria, debilidade e atraso. A campanha encontrou grande repercussão na imprensa do Sul e do Sudeste, alimentando a ideia de que os recursos destinados ao Nordeste constituíam um desperdício e que as obras contra as secas não produziam resultados compatíveis com os recursos empregados.
Era uma narrativa poderosa porque combinava uma realidade existente — a pobreza e os efeitos da seca — com uma interpretação política: a de que o Nordeste seria incapaz de utilizar produtivamente os recursos que recebia da União.
É nesse ambiente que se fortalece o discurso que posteriormente seria sintetizado na expressão “indústria da seca”: a acusação de que a seca e os recursos destinados ao seu enfrentamento teriam se transformado em instrumento de interesses políticos.
Mas há uma contradição que precisa ser lembrada.
Em 1919, durante o governo do paraibano Epitácio Pessoa, a IOCS passou a se chamar Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas — IFOCS. Epitácio Pessoa promoveu um dos mais ambiciosos programas de obras contra as secas da Primeira República, com açudes, poços, estradas e ferrovias. O período de 1920 a 1923 foi o momento áureo da IFOCS: entre 1921 e 1922, os dispêndios com as obras contra as secas chegaram a representar parcela extraordinária do orçamento federal.
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Com a chegada de Artur Bernardes à Presidência, porém, essa política sofreu forte retrocesso. Os investimentos foram drasticamente reduzidos, obras foram paralisadas e projetos ficaram pelo caminho. Estudos históricos registram que os governos Artur Bernardes e Washington Luís praticamente desfizeram o esforço empreendido por Epitácio Pessoa.
Diversas autoridades nordestinas da época, registraram o impacto dessa decisão: a suspensão dos trabalhos provocou prejuízos considerados enormes porque muitas obras estavam próximas de sua conclusão.
A irresponsabilidade estava justamente aí: interromper investimentos estruturantes, deixar obras inacabadas e abandonar projetos que poderiam transformar a capacidade produtiva da região, enquanto crescia no Sul a percepção de que os recursos federais deveriam ser destinados prioritariamente às áreas economicamente mais fortes.
A seca, portanto, não era apenas um fenômeno climático.
Tornava-se também um fenômeno político.
Décadas depois, Luiz Gonzaga e Zé Dantas dariam voz a essa contradição em “Vozes da Seca”. A música não pede simplesmente esmola. Ela reivindica trabalho, infraestrutura e autonomia:
“Dê serviço a nosso povo,
encha os rios de barragem.”
E ainda:
“Seu doutô, os nordestinos
têm muita gratidão.”
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A ironia é evidente. O sertanejo agradece, mas também cobra. Não quer viver eternamente da emergência e da caridade. Quer barragens, açudes, trabalho e condições para produzir.
O nordestino não pede favor; reivindica desenvolvimento.
Mas o Nordeste não nasceu apenas da seca
Antes mesmo dessa construção administrativa e política, o Nordeste já havia produzido acontecimentos fundamentais para a formação do Brasil.
A invasão holandesa e, sobretudo, as lutas contra o domínio neerlandês no século XVII constituem um desses momentos decisivos. A resistência em Pernambuco e em outras áreas do Nordeste reuniu homens de diferentes origens e condições sociais.
Entre os nomes que a memória histórica consagrou estão João Fernandes Vieira, português; Henrique Dias, negro; Felipe Camarão, indígena potiguar; e André Vidal de Negreiros, paraibano. Juntos, eles se transformaram em símbolos da Insurreição Pernambucana, movimento que expulsou os holandeses e deixou uma marca profunda na formação da consciência política do território.
Mais do que uma vitória militar, aquela luta ajudou a produzir um sentimento de pertencimento à terra. Portugueses, indígenas, negros e mestiços combateram juntos contra um inimigo externo. Ainda não existia a ideia de nacionalidade brasileira tal como a compreenderíamos posteriormente, mas aquela experiência contribuiu para a construção de um sentimento patriótico ligado ao território.
O Nordeste também foi palco da Revolta dos Malês, em Salvador, em 1835, uma das mais importantes rebeliões de escravizados e libertos da história brasileira. Organizada principalmente por africanos muçulmanos, a revolta demonstra a complexidade da sociedade nordestina e desmonta outra simplificação: a de que seus povos foram apenas vítimas passivas da escravidão.
E essa tradição de rebeldia atravessaria o tempo.

A Revolução Pernambucana de 1817, a Confederação do Equador de 1824, a Sabinadade 1937, na Bahia,a balaiada de 1938 e tantos outros movimentos revelam uma região politicamente inquieta, que participou ativamente da construção das instituições brasileiras e, muitas vezes, enfrentou o poder central.
No centro dessa tradição está Frei Caneca.
Frei Caneca não foi apenas um religioso. Foi jornalista, intelectual e revolucionário. Sua participação na Confederação do Equador revela um Nordeste que discutia República, federalismo, liberdade e autonomia quando o Brasil ainda estava construindo suas instituições nacionais.
E antes mesmo de Frei Caneca, a Bahia já havia produzido uma voz de extraordinária força política e literária: Castro Alves.

Nascido em Curralinho, na Bahia, Castro Alves transformou a poesia em instrumento de combate à escravidão. Sua poesia abolicionista deu voz aos que não tinham voz e projetou nacionalmente a tradição libertária baiana.
Como reduzir esse Nordeste à imagem do atraso?
Antônio Conselheiro e a complexidade do Sertão
Outro exemplo é Antônio Conselheiro.
Durante muito tempo, a história de Canudos foi apresentada principalmente a partir da narrativa do conflito e da derrota. Mas a experiência de Belo Monte era muito mais complexa. Ali se reuniram sertanejos pobres, ex-escravizados, trabalhadores, agricultores e pessoas que buscavam uma forma diferente de organizar a vida.
Euclides da Cunha, em Os Sertões, produziu uma das maiores obras da literatura brasileira justamente ao tentar compreender aquele universo. Mas é importante reconhecer a transformação de seu olhar.
Inicialmente, Euclides da Cunha carregava muitos dos preconceitos científicos e deterministas de sua época. Via os seguidores de Conselheiro através de categorias que os apresentavam como atrasados, fanáticos e incompatíveis com a ideia de civilização. Sua interpretação inicial estava profundamente marcada pelas teorias raciais e pelo determinismo então predominantes.
Mas o contato com a guerra modificou seu olhar.

Ao chegar a Canudos como correspondente de O Estado de S. Paulo, Euclides da Cunha testemunhou a violência da campanha militar e percebeu a dimensão da resistência daqueles sertanejos. A experiência contribuiu para que sua visão se tornasse muito mais complexa. Os Sertões nasceu da tentativa de compreender aquilo que ele havia presenciado: a força, a resistência e também a tragédia de um povo massacrado pelo próprio Estado.
É uma passagem extraordinária para pensar o perigo de uma história única. Euclides da Cunha também teve de rever a história que havia aprendido.
A mesma necessidade de revisão aparece quando olhamos para personagens como Cabeleira, Antônio Silvino e Lampião.
O cangaço não pode ser romantizado. Havia violência, havia crimes, havia vinganças e brutalidade. Mas também não pode ser explicado apenas pela criminalidade individual. É necessário compreender as condições sociais, políticas e econômicas que produziram o fenômeno: concentração da terra, mandonismo, ausência ou fragilidade do Estado, violência das elites locais e um sistema de justiça muitas vezes profundamente desigual.
Cabeleira, personagem histórico que atravessou a literatura de Franklin Távora; Antônio Silvino, o “Rifle de Ouro”; e Lampião, o mais famoso dos cangaceiros, foram produtos de um mundo em que a violência fazia parte da própria estrutura social.

Compreendê-los não significa absolvê-los.
Significa recusar a explicação fácil.
Frederico Pernambucano de Mello, um dos maiores estudiosos do cangaço, é particularmente importante para essa leitura. Em Guerreiros do Sol, Estrelas de Couro, A Guerra Total de Canudos e Apagando o Lampião, procura devolver complexidade histórica ao sertão e ao fenômeno do cangaço.
Mais uma vez, é preciso substituir a história única pela história complexa.
O Nordeste que pensou o Brasil
Uma das maiores fragilidades da história única sobre o Nordeste é que ela praticamente elimina seus intelectuais.
Basta lembrar Gilberto Freyre e Casa-Grande & Senzala. Ao estudar a formação social brasileira a partir da experiência da casa-grande, da senzala, da escravidão, da família patriarcal e da cultura nordestina, Freyre colocou o Nordeste no centro da interpretação do Brasil.
Sua obra pode e deve ser criticada. E foi. Mas é impossível compreender a formação social brasileira sem passar por ela.

José Américo de Almeida, com A Bagaceira, trouxe para a literatura a tensão entre o sertão e a zona da mata, revelando uma sociedade marcada pela seca, pela migração e pelas estruturas agrárias.
José Lins do Rego, sobretudo em Menino de Engenho, Doidinho, Banguê, Usina e Fogo Morto – Pedro Igor, meu filho, ainda criança leu e fez um Fogo Morto a partir de sua interpretação da leitura e das conversas comigo – construiu uma das mais importantes representações literárias da decadência da sociedade açucareira. Sua obra é também um documento da transformação do mundo dos engenhos.
E é justamente aqui que a obra de Octávio Santiago encontra a minha própria história.
Nasci nos engenhos da Zona da Mata pernambucana.
Venho desse mundo da cana-de-açúcar, dos engenhos, dos trabalhadores rurais, dos cortadores de cana e das relações sociais que José Lins do Rego transformou em literatura. Por isso, quando leio a representação do Nordeste, não estou olhando apenas para uma paisagem literária. Reconheço ali uma parte da minha própria memória.
Minha infância foi marcada por esse universo de canaviais, engenhos e trabalhadores da Zona da Mata Sul de Pernambuco.


Também é impossível falar da inteligência nordestina sem mencionar Rui Barbosa, baiano, jurista, escritor, político e um dos grandes intelectuais da história brasileira. Sua trajetória demonstra que o Nordeste nunca esteve intelectualmente à margem do país.
A poesia que o estereótipo não consegue explicar
E então aparece Manuel Bandeira.
Pernambucano do Recife, Manoel Bandeira fez da simplicidade uma das formas mais sofisticadas da poesia brasileira. Em sua obra estão o Recife, a infância, a memória, a doença, a morte, o cotidiano e a melancolia. Mas está também uma profunda capacidade de transformar a experiência particular em linguagem universal.
Quando Manoel Bandeira escreve sobre o Recife, não está descrevendo um Nordeste atrasado. Está ajudando a construir uma das mais importantes vozes da poesia brasileira.
Sua relação com a poesia popular nordestina também merece atenção. Ao saudar os repentistas Dimas e Otacílio Batista, Bandeira reconheceu a força da cantoria sertaneja e mostrou que a poesia erudita e a poesia popular podiam dialogar.
O mesmo vale para Ariano Suassuna, que transformou o sertão em universo estético, filosófico e teatral. Em Auto da Compadecida, O Santo e a Porca e no conjunto de sua obra, Ariano demonstrou a extraordinária riqueza da cultura sertaneja, fundada na mistura entre tradição popular, religiosidade, humor, oralidade e literatura erudita.
O Nordeste de Ariano não pede licença para existir.

Ele afirma sua própria cultura.
E há tambem, Graciliano Ramos, talvez um dos escritores que mais profundamente mergulharam nas contradições humanas e sociais do sertão. Em Vidas Secas, a família de Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos e a cadela Baleia transformam a seca e a pobreza em uma das mais poderosas obras da literatura brasileira.
Mas Graciliano nunca escreveu apenas sobre a seca.
Escreveu sobre a dignidade humana, a opressão, a linguagem, o poder e a brutalidade das relações sociais. Em São Bernardo, Angústia e Memórias do Cárcere, seu universo literário ultrapassa amplamente o sertão.
Rachel de Queiroz, por sua vez, em O Quinze, transformou a grande seca de 1915 em literatura e deu rosto humano à migração, à fome e à desestruturação provocada pela estiagem. Mas também foi muito além do romance da seca, construindo uma obra marcada pela observação da sociedade, das relações humanas e da condição feminina.
São autores que demonstram que a literatura nordestina não pode ser confundida com literatura sobre a miséria.
Catulo, Luiz Gonzaga, Jackson, Dominguinhos
Essa afirmação também está na música.
Catulo da Paixão Cearense levou para a música brasileira uma forte presença da sensibilidade nordestina, aproximando a tradição popular de formas que se incorporaram à música urbana brasileira.
Depois vieram Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e Dominguinhos.

Luiz Gonzaga fez algo extraordinário: transformou o sertão em linguagem nacional. A sanfona, a zabumba e o triângulo passaram a contar ao Brasil uma história que antes era muitas vezes narrada de fora para dentro.
Jackson do Pandeiro introduziu uma complexidade rítmica extraordinária na música brasileira.
Dominguinhos levou a sanfona a uma dimensão de delicadeza e sofisticação que ultrapassou qualquer fronteira regional.
E, antes e ao lado dessa tradição musical, é impossível não lembrar Lourival Batista, o grande poeta do sertão do Pajeú, o “Louro do Pajeú”, mestre da cantoria e do improviso. Ao lado de Pinto do Monteiro, mesma cidade de Flávio José e de outros grandes cantadores, Lourival mostrou que a cultura sertaneja também produz uma sofisticada inteligência verbal.
A tradição não parou.
Ela está em Assisão, Santana, Petrúcio Amorim, Flávio José, Dorgival Dantas Flávio Leandro, João Gomes, Dedé de Monteiro, Nando Cordel, Adelmario Coelho, Antônio Nóbrega e Antônio Marinho, entre tantos outros.
Está no forró, na ciranda, no maracatu, no coco, no frevo, no baião, na literatura de cordel e na cantoria.
E a Bahia acrescentou à música brasileira uma contribuição extraordinária
Assis Valente, baiano de Santo Amaro, transformou a experiência brasileira em canções de extraordinária criatividade.
Dorival Caymmi, baiano, levou para o Brasil e para o mundo os pescadores, o mar, a religiosidade, a culinária, os costumes e a paisagem humana da Bahia.

Caetano Veloso, nascido em Santo Amaro, incorporou a Bahia à modernidade da música brasileira e ajudou a transformar a cultura nordestina em matéria de reflexão estética, política e cultural.
E Gilberto Gil, também baiano, levou ainda mais longe essa capacidade de diálogo entre tradição e modernidade. Sua obra incorporou o samba, o baião, o reggae, a música africana, a guitarra elétrica e inúmeras outras influências, demonstrando que a cultura nordestina não é uma peça de museu: é uma cultura viva, aberta ao mundo e permanentemente renovada.
Tudo isso desmonta a ideia de um Nordeste culturalmente pobre.
O que existe é exatamente o contrário: uma das culturas regionais mais vigorosas, reconhecíveis e influentes do Brasil.
Josué de Castro e a fome como questão política
Outro nome fundamental é Josué de Castro.
Em Geografia da Fome, ele realizou uma operação intelectual extraordinária: retirou a fome do campo da fatalidade e colocou-a no campo da política.
A fome não era simplesmente consequência da natureza. Era também consequência da estrutura social, econômica e política.

Isso muda tudo.
O sertanejo não era pobre porque era nordestino. A pobreza tinha causas históricas.
A obra de Josué de Castro foi fundamental justamente por revelar que problemas sociais não podem ser naturalizados.
Sua contribuição é essencial para desmontar a ideia de que a miséria nordestina seria uma espécie de destino geográfico.
Celso Furtado e a superação do Nordeste como problema
Essa mesma perspectiva alcançaria uma dimensão decisiva com Celso Furtado.
No governo Juscelino Kubitschek, foi criado, em 1956, o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste — GTDN, coordenado por Celso Furtado. O grupo representou uma ruptura com a visão do Nordeste apenas como território da seca e da emergência.
O pensamento de Celso Furtado procurou demonstrar que o subdesenvolvimento nordestino tinha raízes estruturais e não poderia ser enfrentado somente com medidas emergenciais ou obras hidráulicas.

Nesse processo, merece destaque Rômulo Almeida, baiano, economista e homem público de enorme importância. Foi o idealizador e primeiro presidente do Banco do Nordeste do Brasil — BNB e, como assessor de Getúlio Vargas, ajudou a formular uma visão do desenvolvimento nordestino que ultrapassava as políticas meramente assistencialistas e a simples construção de obras de infraestrutura hídrica.
O que estava em jogo era uma mudança de paradigma: o Nordeste deveria ser pensado como espaço de desenvolvimento, produção, industrialização, conhecimento e transformação econômica.
Mais tarde, Tânia Bacelar, pernambucana, se tornaria uma das grandes continuadoras dessa tradição de pensamento sobre desenvolvimento regional, desigualdades territoriais e economia nordestina.
Aqui está outra história que o estereótipo não conta:
O Nordeste não foi apenas objeto de políticas públicas. Produziu pensamento para formular políticas públicas.
E o Nordeste continua produzindo
Talvez uma das melhores maneiras de desmontar a história única seja olhar para o presente.
O desempenho dos estudantes nordestinos no Enem é uma dessas evidências. Jovens de escolas públicas e privadas da região aparecem entre os melhores resultados e conquistam vagas nas principais universidades brasileiras.
Isso também precisa fazer parte da narrativa.
O jovem nordestino que aparece no imaginário de parte do Brasil como alguém destinado ao subemprego ou à migração é, muitas vezes, o mesmo jovem que conquista uma vaga em medicina, engenharia, direito, computação, ciência ou qualquer outra área do conhecimento.
A história continua sendo escrita.
O que Octávio Santiago nos ajuda a enxergar
É por tudo isso que considero particularmente importante a leitura de Só Sei Que Foi Assim.
Octávio Santiago não está simplesmente pedindo que o Brasil seja mais gentil com o Nordeste. Está fazendo algo intelectualmente mais exigente: está nos convidando a reexaminar a narrativa através da qual aprendemos a enxergar os nordestinos.
E essa é uma diferença fundamental.
Não se trata de substituir uma caricatura negativa por uma caricatura positiva.
Não precisamos inventar um Nordeste perfeito para combater o preconceito contra ele.
Precisamos mostrar o Nordeste inteiro.
O Nordeste da seca e o Nordeste das águas.
O Nordeste da pobreza e o Nordeste da produção.
O Nordeste dos engenhos e o Nordeste das universidades.
O Nordeste de Antônio Conselheiro e o Nordeste de Celso Furtado.
O Nordeste de Frei Caneca e o Nordeste dos estudantes que hoje disputam as melhores universidades do país.
O Nordeste de José Lins do Rego e o Nordeste de João Gomes.
O Nordeste de Luiz Gonzaga e o Nordeste de Dominguinhos.
O Nordeste de Graciliano Ramos e o de Rachel de Queiroz.
O Nordeste de Gilberto Freyre e o de Josué de Castro.
O Nordeste de Ariano Suassuna e o de João Cabral de Melo Neto.
O Nordeste de Manuel Bandeira e o de Evaldo Cabral de Mello.
O Nordeste de Catulo e o de Lourival Batista.
O Nordeste de Castro Alves, de Jorge Amado.
O Nordeste de Assis Valente, Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
O Nordeste do maracatu, da ciranda do forró e do samba de roda.
O Nordeste que sofreu e o Nordeste que resistiu.
O Nordeste que foi objeto de preconceito e o Nordeste que ajudou a construir o próprio Brasil.
Talvez seja essa a grande aproximação entre Octávio Santiago e Chimamanda Adichie: ambos nos ensinam que o verdadeiro antídoto contra o preconceito é a multiplicação das histórias.
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Porque uma história única empobrece quem é contado e também empobrece quem conta.
E o Brasil, quando reduz o Nordeste a uma única história, não está apenas cometendo uma injustiça contra os nordestinos.
Está deixando de conhecer uma parte essencial de si mesmo.
Pois bem, meus caros e minhas caras poucos leitores e leitoras, é também por acreditar na força dessa multiplicidade de histórias que, no Tribunal de Contas do Estado da Bahia, estou montando um clube de leitura. E a primeira obra que pretendo levar à discussão será justamente Só Sei Que Foi Assim, de Octávio Santiago.
Autor que virá ao Tribunal de Contas do Estado da Bahia para lançar seu livro no próximo mês de outubro.
Começar por esse livro não é uma escolha casual.

É uma maneira de abrir a roda de conversa perguntando não apenas o que lemos, mas como aprendemos a olhar para o outro.
E talvez seja essa a melhor forma de começar um clube de leitura: com um livro que nos ensina que, antes de procurar respostas, precisamos desconfiar das histórias que julgávamos conhecer.
Bibliografia e fontes consultadas:
· SANTIAGO, Octávio. Só Sei Que Foi Assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
· ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O Perigo de uma História Única. TED Talk, 2009.
· FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala; Nordeste.
· REGO, José Lins do. Menino de Engenho; Fogo Morto; Usina; Bangüê.
· RAMOS, Graciliano. Vidas Secas; São Bernardo; Angústia; Memórias do Cárcere.
· QUEIROZ, Rachel de. O Quinze.
· BANDEIRA, Manuel. Estrela da Tarde e poesia completa.
· ALMEIDA, José Américo de. A Bagaceira.
· SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida; O Santo e a Porca.
· CABRAL DE MELO NETO, João. Morte e Vida Severina; O Cão sem Plumas; O Rio.
· MELO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada; Rubro Veio; Nassau: governador do Brasil holandês.
· CASTRO, Josué de. Geografia da Fome; Geopolítica da Fome.
· FURTADO, Celso. Formação Econômica do Brasil; A Operação Nordeste; Uma Política de Desenvolvimento Econômico para o Nordeste.
· MELLO, Frederico Pernambucano de. Guerreiros do Sol; Estrelas de Couro; A Guerra Total de Canudos; Apagando o Lampião.
· PAIXÃO CEARENSE, Catulo da. Obras poéticas e musicais.
· BATISTA, Lourival. Obras e registros da cantoria popular do Pajeú.
Josias Gomes
Engenheiro Agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia
