João Pedro e Elizabeth: uma história de amor, luta e resistência
A história de João Pedro Teixeira e Elizabeth Teixeira carrega as marcas de um drama shakespeariano, muito comum no Nordeste brasileiro. Mas, aqui, a vida supera a arte: foi o início de um dos maiores movimentos de libertação dos trabalhadores rurais das Américas.
Ela, filha de proprietário de terras; ele, trabalhador braçal, que ganhava o dia numa pedreira. Uma fórmula que unia fogo e pólvora e incendiava conflitos familiares — uma realidade que, infelizmente, permanece até os dias atuais.
O amor venceu o medo pela primeira vez
João e Elizabeth desafiaram as ordens do pai da moça e fugiram para viver uma vida a dois, cercada de desafios. O sogro, que não aprovava a relação de um trabalhador pobre com sua filha, acabou por ceder, como se diz no Nordeste: “Dos males, o menor”. Arrendou o próprio sítio, Antas do Sono, para que os jovens pudessem tirar dali o sustento e formar uma família.

Tudo isso aconteceu no interior da Paraíba, em meados dos anos 1950. Mal sabia o sogro que, dali, nasceria o clímax da tragédia.
João e o cambão da revolta
A terra que alimentava, no Nordeste do tempo dos coronéis, era a mesma que sepultava dignidade, direitos, sonhos e uma infinidade de vidas.
Para o infortúnio de João e Elizabeth, eles sentiram na própria pele a exploração do cambão, um tipo de relação de trabalho de caráter escravista, na qual o trabalhador era obrigado a trabalhar alguns dias gratuitamente para os fazendeiros, sob o pretexto de garantir sua permanência nas terras arrendadas.
João e Elizabeth revoltaram-se, organizaram outros companheiros explorados e, em 1958, fundaram a Associação dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas de Sapé.

A partir daquele momento, João Pedro era um cabra marcado para morrer, “de morte matada”, na linguagem dos coronéis.
As Ligas Camponesas
As Ligas Camponesas nasceram com o intuito de organizar os trabalhadores do campo, estimuladas pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), para levar adiante a luta por seus direitos.
Elas começaram a existir em 1945, estabeleceram-se em vários municípios e foram fundamentais para o movimento pela reforma agrária no Brasil. Até serem sufocadas, em 1947, quando o PCB foi colocado na ilegalidade.
Mas a semente da libertação já estava plantada.
Em meados de 1955, as Ligas retomaram o fôlego, mais precisamente no Engenho Galileia, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco, quando os camponeses organizaram a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco (SAPP), uma maneira de driblar a censura e as restrições à organização dos trabalhadores rurais.
Associação dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas de Sapé
Como disse anteriormente, João Pedro liderou a associação, que também ficou conhecida como Liga de Sapé. Com cerca de 10 mil filiados, tornou-se a mais forte do país, e João Pedro transformou-se em uma liderança nacional, ao lado de Francisco Julião.
Um desaforo que os fazendeiros paraibanos e seus aliados, herdeiros de um Brasil-colônia, não podiam aceitar.
Quem sempre comandou no estalo do chicote e na ponta do fuzil não poderia admitir trabalhadores exigindo direitos e, sobretudo, aventando qualquer possibilidade de reforma agrária.

As balas de fuzil cravadas nas costas de João
No dia 2 de abril de 1962, o líder paraibano dos camponeses foi atraído para uma tocaia, depois de uma viagem à capital, João Pessoa (PB).
Segundo artigo publicado pelo projeto Memórias da Ditadura, a morte de João Pedro foi encomendada por fazendeiros da região. Ele enfrentava um conflito relacionado aos processos legais envolvendo o sítio Antas do Sono, que havia arrendado de seu sogro e que fora vendido a Antônio José Tavares.
De acordo com o depoimento de Francisco de Assis Lemos de Souza, a ida de João Pedro para a capital, naquele 2 de abril, teria como objetivo uma reunião com Antônio José Tavares, comprador do sítio, e seu advogado.

A reunião jamais ocorreu.
João retornou para casa ao final da tarde. Nas proximidades de Café do Vento, em direção a Sapé, o líder camponês foi covardemente alvejado pelas costas com tiros de fuzil.
Seus algozes? O cabo Antônio Alexandre da Silva, o soldado Francisco Pedro da Silva, conhecido como “Chiquinho”, e o vaqueiro Arnaud Nunes Bezerra, pistoleiros afamados.
Segundo depoimentos e materiais jornalísticos anexados ao processo da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), os mandantes intelectuais do crime foram Aguinaldo Veloso Borges, Pedro Ramos Coutinho e o próprio Antônio José Tavares.
O amor venceu o medo pela segunda vez
Desde aquele trágico dia, Elizabeth não contava mais com o amor de sua vida nem com o líder que havia guiado milhares de trabalhadores rurais contra uma das mais antigas estruturas de poder da sociedade brasileira.
No sepultamento de João Pedro, cerca de 5 mil camponeses da região prestaram homenagem ao líder.
No 1º de Maio, aconteceu um ato ainda maior: 40 mil pessoas tomaram as ruas de João Pessoa para prestar tributo a João Pedro e cobrar justiça pelo crime infame que matou um homem trabalhador e honrado.

Os manifestantes também exigiram uma Comissão Parlamentar de Inquérito que pudesse elucidar o caso de forma mais efetiva. Iniciativas nesse sentido foram articuladas na Assembleia Legislativa do Estado.
Apesar da condenação dos responsáveis pela morte de João Pedro, eles foram absolvidos, em março de 1965, pelo regime militar.
Nem todo esse estado de horror e impunidade, em plena ditadura, foi capaz de paralisar Elizabeth.
Após a morte do seu companheiro, ela não se rendeu às ameaças dos latifundiários e deu continuidade à luta por trabalho digno, reforma agrária e justiça no campo.
Tornou-se um símbolo histórico da resistência e da luta camponesa.
Se você leu até aqui, recomendo assistir ao filme Cabra Marcado para Morrer. O documentário, dirigido por Eduardo Coutinho, é uma obra-prima do cinema brasileiro. Iniciado em 1964 e retomado nos anos 1980, conta a história de amor e luta de João Pedro e Elizabeth Teixeira.
Em 2025, Elizabeth completou 100 anos. Seu centenário testemunha a trajetória de uma mulher que desafiou a própria família para viver o amor com um homem preto, pobre e sem-terra.
Depois de ter seu companheiro assassinado, ela enfrentou os coronéis do Nordeste e venceu.
Em janeiro de 2018, o nome de João Pedro Teixeira passou a figurar no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, que homenageia personalidades de destaque na história do país.

A vida e a obra de João Pedro e Elizabeth superam, com tranquilidade, qualquer clássico da dramaturgia mundial.
Uma história que existiu e continua viva nos corações de todos os brasileiros que aspiram a um país mais igualitário, democrático e soberano, capaz de romper, em definitivo, com os traços de colonialidade que insistem em nos dividir e que, infelizmente, ainda fazem muitas vítimas no campo e na cidade.
Porque, assim como o amor de João Pedro e Elizabeth, o sonho não pode morrer.
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
