Salve Jorge! A liberdade que renasceu das cinzas
Por melhor que seja um presidente ou um governo, sem o oxigênio essencial da democracia, um regime de exceção pode cometer injustiças históricas e promover perseguições injustificáveis. Jorge Amado que o diga. A literatura e os livros de história não nos deixam esquecer.
Getúlio Vargas foi um dos maiores estadistas não somente do Brasil, mas também da América Latina. Com a participação marcante da classe trabalhadora, consolidou importantes direitos trabalhistas que representaram conquistas históricas para os trabalhadores brasileiros, entre elas:
Carteira de Trabalho (1932): criada para formalizar os empregos e registrar salários e tempo de serviço.
Jornada de 8 horas (1934): estabeleceu limites para a duração diária do trabalho.
Férias e descanso semanal: instituiu o descanso remunerado e as férias anuais.
Salário mínimo (1940): estabeleceu um piso salarial básico para os trabalhadores.
CLT (1943): reuniu e sistematizou a legislação trabalhista na Consolidação das Leis do Trabalho.

Getúlio também foi um dos principais responsáveis pelo processo de industrialização e pela construção da infraestrutura nacional. Em seus governos, foram criadas instituições fundamentais para o desenvolvimento do país:
CSN (1941): criou a Companhia Siderúrgica Nacional, responsável por impulsionar a produção de aço no país.
Vale do Rio Doce (1942): criou a mineradora estatal, atual Vale.
Petrobras (1953): fundou a estatal do petróleo durante seu segundo mandato.
Eletrobras (1954): lançou as bases para a estruturação do setor elétrico nacional.
Dito isso, Vargas também foi um implacável perseguidor de seus opositores. Como podemos ver no vídeo, o baiano Jorge Amado sentiu na pele a repressão promovida pelo governo Vargas.

Jorge Amado foi um escritor que contestou as relações de poder e denunciou a exploração do coronelismo na região cacaueira. Denunciou o abandono de crianças e jovens nas ruas de Salvador. Deu vida a personagens considerados marginais pela elite: prostitutas, trabalhadores braçais, boêmios, pessoas com deficiência e tantos outros personagens socialmente invisibilizados.
Tratou do sincretismo religioso como poucos na terra do Axé e ajudou a revelar ao Brasil e ao mundo uma Bahia marcada pela diversidade, pela desigualdade, pela resistência e pela riqueza cultural de seu povo.
De forma inquisidora, a repressão varguista perseguiu e destruiu exemplares de sua obra. Jorge Amado precisou buscar o exílio para sobreviver e continuar escrevendo.


Tornou-se um escritor e intelectual de reconhecido valor internacional, admirado por personalidades como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Pablo Picasso, Pablo Neruda, Nicolás Guillén, Louis Aragon, René Depestre e Ilya Ehrenburg, entre tantos outros.
Retornou ao Brasil consagrado e tornou-se deputado federal. Em 1945, foi eleito pelo PCB com expressiva votação em São Paulo, recebendo grande apoio popular. Participou dos debates políticos do período e da construção do novo momento constitucional brasileiro após o fim da ditadura do Estado Novo.
Um de seus principais legados na vida pública foi a luta pela liberdade religiosa. Jorge Amado atuou pela garantia constitucional do livre exercício da crença e do culto religioso, uma defesa que assumiu especial importância para as religiões de matriz africana, historicamente perseguidas e discriminadas pelo Estado.

Essa luta contribuiu para ampliar a proteção legal à liberdade religiosa no país e para afirmar um princípio fundamental: nenhuma pessoa deve ser perseguida por sua fé.
Em 1948, Jorge Amado e a democracia sofreram mais um duro golpe. Seu mandato de deputado federal foi cassado depois que o governo do presidente Eurico Gaspar Dutra colocou o PCB na ilegalidade.
O que seus perseguidores nunca conseguiram, entretanto, foi impedir Jorge Amado de se tornar um dos maiores escritores do mundo.
A vida e a obra de Jorge Amado provam que, quando a democracia é violentada, podem ser incendiadas a arte, a cultura e as próprias liberdades individuais e constitucionais.
Mas também provam o contrário: aquilo que se tenta destruir pela força pode renascer ainda mais forte.
O legado de Jorge, o Obá de Xangô, renasceu das cinzas e se tornou pedra fundamental da literatura brasileira. Sua obra atravessou fronteiras, gerações e regimes políticos, permanecendo viva porque fala de um povo, de uma terra e de suas contradições.

Uma frase do próprio Jorge Amado em Capitães da Areia, diz muito, tudo que escritor passou: “A alegria daquela liberdade era pouca para a desgraça daquela vida”.
Salve Jorge!
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
