FACES NEGRAS IMPORTAM: QUANDO A HISTÓRIA RECUPERA O ROSTO DE SUAS HEROÍNAS
Fiquei encantado com o projeto “Faces Negras Importam”, apoiado pelo Banco do Brasil, que uniu pesquisa histórica e recursos de inteligência artificial para recriar as faces de três importantes lideranças negras da história do Brasil: Tereza de Benguela, Luiza Mahin e Maria Felipa.
Durante muito tempo, as três foram representadas pela mesma imagem genérica, conhecida como “A Mulher Negra de Turbante”. A fotografia, produzida no século XIX pelo fotógrafo Alberto Henschel, acabou sendo associada indevidamente a diferentes personagens históricas. O projeto parte justamente dessa constatação para enfrentar um problema maior: a ausência e a despersonalização das representações visuais de mulheres negras na memória brasileira.
Seria impossível reproduzir exatamente os rostos dessas mulheres, já que não existem fotografias conhecidas delas. E é justamente aí que está uma das dimensões mais interessantes do projeto. O trabalho não pretende apresentar fotografias reais, mas reconstruções visuais fundamentadas em pesquisas históricas, documentos, estudos acadêmicos, relatos e referências sobre vestimentas, características e contextos de cada personagem. O processo contou com pesquisadoras e recursos de inteligência artificial.
Em certa medida, é como se muitas mulheres negras brasileiras também estivessem contempladas nesse trabalho. Afinal, quando uma personagem histórica ganha identidade e rosto, amplia-se também a possibilidade de reconhecimento de tantas outras mulheres que tiveram suas trajetórias invisibilizadas.

Tereza de Benguela foi uma das principais lideranças quilombolas do século XVIII. Após a morte de seu companheiro, José Piolho, assumiu a liderança do Quilombo do Quariterê, no atual Mato Grosso. Sob seu comando, a comunidade reuniu pessoas negras e indígenas e resistiu por décadas às forças coloniais. O quilombo possuía uma estrutura política, econômica e administrativa própria, com decisões tomadas em conselho, em um sistema descrito nos registros históricos como semelhante a um parlamento. Também desenvolvia agricultura, produzia tecidos em teares e comercializava excedentes.
Maria Felipa de Oliveira é uma das grandes referências da resistência popular durante as lutas pela Independência da Bahia, em 1822 e 1823. Marisqueira e pescadora, sua trajetória está associada à mobilização de moradores da Ilha de Itaparica contra as forças portuguesas. Segundo relatos históricos preservados e referências utilizadas em pesquisas sobre sua trajetória, ela teria liderado um grupo de cerca de 200 pessoas, entre mulheres negras e indígenas.

Apesar de durante muito tempo ter recebido menos espaço na narrativa nacional sobre a Independência, Maria Felipa permaneceu viva na memória popular baiana. E aqui entra a força do nosso 2 de Julho, que celebra a Independência da Bahia e mantém viva a lembrança de personagens que participaram da luta, entre elas mulheres negras e integrantes das camadas populares.
Luiza Mahin é outro dos grandes nomes associados à resistência negra na Bahia do século XIX. Mãe de Luiz Gama, poeta, advogado e importante abolicionista brasileiro, ela aparece na carta autobiográfica que o filho escreveu em 1880 como uma africana livre da Costa da Mina. Segundo o relato de Gama, ela teria participado de articulações de revoltas na Bahia. A tradição histórica posteriormente associou seu nome à Revolta dos Malês, em 1835, e à Sabinada, entre 1837 e 1838. No entanto, pesquisadores destacam que não existem documentos primários que comprovem definitivamente sua participação nesses levantes, o que torna sua trajetória um dos casos mais complexos da memória histórica afro-brasileira.

Essa dimensão não diminui a importância de Luiza Mahin na memória brasileira. Pelo contrário: mostra como memória, tradição, literatura e documentação histórica podem se entrelaçar na construção das narrativas sobre personagens que foram durante muito tempo invisibilizadas.
Em 2016, Luiza Mahin foi também personagem de um júri simulado promovido pela Defensoria Pública da Bahia, no qual foi absolvida simbolicamente das acusações de conspiração contra a Coroa portuguesa. Em 2019, seu nome foi inscrito oficialmente no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, por meio da Lei nº 13.816.
Por este breve resumo das trajetórias de Tereza de Benguela, Luiza Mahin e Maria Felipa, podemos ter uma dimensão da importância dessas mulheres para a história do Brasil — sobretudo para a história das mulheres e, em especial, das mulheres negras.
Recriar os rostos dessas três lideranças é também ajudar a contar a história do nosso povo a partir de outras perspectivas. É devolver identidade a personagens que durante muito tempo apareceram sem rosto. É recolocar no centro do debate a participação das mulheres negras nas lutas por liberdade, resistência e independência.
Mais do que uma experiência com inteligência artificial, o “Faces Negras Importam” nos provoca a pensar sobre quem aparece quando contamos a história do Brasil — e quem ficou ausente dela.
Porque memória também é território de disputa. E um povo que recupera seus rostos recupera também parte da sua própria história.
Parabéns a todas as pesquisadoras, pesquisadores e profissionais envolvidos neste projeto!
Viva Tereza de Benguela!
Viva Luiza Mahin!
Viva Maria Felipa!
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia
