A Copa do Mundo não pertence aos poderosos
“O poeta é o médium
da Natureza
que explica sua grandeza
por meio de palavras.”
-García Lorca
Em março, tive a felicidade de ir à Espanha e participar do VI Congresso Internacional de Controle Público e Luta contra a Corrupção. Na oportunidade, também fiz uma travessia pela Andaluzia e fiquei encantado com aquelas terras, a ponto de reviver a minha amada Amaraji. A Espanha é a terra do poeta García Lorca, de Cervantes, de Pablo Picasso e do povo espanhol. Assim como o futebol não é da FIFA, a Copa do Mundo pertence, antes de tudo, aos povos.
Mal sabia eu que a Espanha, com jogadores oriundos de diferentes regiões do país, entre eles os filhos de imigrantes Lamine Yamal e Nico Williams, alcançaria a glória eterna do futebol. A história desses dois jovens negros ilustra bem o espírito dos povos. Ao ser questionado sobre a pressão de disputar uma Copa do Mundo aos 18 anos, Lamine Yamal respondeu: “Pressão? Minha mãe me teve aos 16 anos e meu pai recolhia coisas na rua para colocar comida em casa. Isso é pressão. Eu só preciso jogar futebol.” Seus pais são africanos: Mounir Nasraoui é marroquino, e sua mãe, Sheila Ebana, nasceu na Guiné Equatorial.
Já os pais de Nico Williams, Félix Williams e María Arthuer, são ganeses e refugiados de guerra. O atacante espanhol honrou a família com um belo gesto e uma declaração histórica: “Eu corro rápido, mas nunca tão rápido quanto a minha mãe. Ela escapou da morte e atravessou o deserto do Saara, de Gana até a Espanha. Entreguei minha medalha a ela, porque ninguém merece mais do que ela.” Não é, e nunca será, somente futebol. Milhões de pessoas cabem nessas palavras.

O jogo coletivo dos espanhóis venceu a genialidade de Messi e a catimba argentina. Tudo caminhava para um desfecho perfeito, até que Donald Trump, o imperador da guerra, tentou fazer parte da comemoração oficial da seleção espanhola. O capitão da Espanha e eleito craque da Copa, Rodri, guardou sua principal jogada para esse momento: sem dizer uma palavra e com a habilidade de um toureiro, deixou Trump passar no vazio.
Trump representa a mesma tradição autoritária e belicista que lançou a Espanha na Guerra Civil e cujas marcas permanecem até hoje na sociedade espanhola. É o tipo de ditador que mata os “Garcías Lorcas” e tantos inocentes pelo mundo. Que fique com as vaias que recebeu no estádio e passe longe de quem trabalhou dignamente para conquistar a Copa do Mundo.
Aliás, as gerações futuras terão dificuldade em compreender por que os Estados Unidos sediaram uma Copa do Mundo sob as ordens e os caprichos de um governo tirânico. Estudarão que seleções de países considerados inimigos por Trump foram humilhadas, que árbitros foram impedidos de exercer plenamente o seu ofício e que até mesmo um jogador dos Estados Unidos foi absolvido de uma expulsão para poder enfrentar a Bélgica em uma partida decisiva.

Talvez nem García Lorca pudesse explicar a natureza de homens maus como Trump. Mas, certamente, escreveria o mais belo poema para a seleção espanhola, que conquistou o título mundial dentro de campo e não permitiu que a fotografia da eternidade fosse manchada por alguém que merece apenas ser esquecido.
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
