Cabula: território de resistência e memória
No início de junho, contamos um pouco da história do Quilombo dos Palmares e de seu principal líder, o lendário Zumbi. Na Bahia, os povos escravizados também resistiram à escravidão e lutaram pela liberdade. Prova disso é que, segundo o IBGE, o estado baiano possui 1.814 localidades quilombolas e o maior contingente populacional quilombola do país, com 397.502 pessoas autodeclaradas.
Em Salvador, o bairro do Cabula e localidades vizinhas, como Pernambués, Mata Escura, Engomadeira e Arraial do Retiro, têm suas origens ligadas aos antigos quilombos e à saga dos povos escravizados em busca de dignidade e liberdade, como demonstra o conteúdo produzido pela Voz Bahiana. A palavra Cabula tem origem no quicongo, língua do tronco banto, e significa “lugar de afastamento dos males”. O nome do bairro também está relacionado ao termo banto Kabula e a um ritmo religioso e musical entoado nas matas pelos negros que habitavam e resistiam naquela região.
O sonho de uma sociedade livre foi interrompido pela violência das forças coloniais. A repressão contra os escravizados ficou registrada em documentos oficiais, como as cartas do Conde da Ponte, datadas de 1807. Ainda assim, a memória desse povo guerreiro sobreviveu por meio da tradição oral, da forte presença dos terreiros de candomblé e de um patrimônio histórico e cultural cuja influência permanece viva e molda a Salvador de hoje.
É importante destacar que Salvador é uma das cidades com maior população negra fora do continente africano. No entanto, embora o povo negro seja maioria e tenha sido o principal responsável pela construção da riqueza material e imaterial da cidade, seus descendentes ainda enfrentam as consequências de séculos de escravidão e da permanência de estruturas racistas que se manifestam nas dimensões social, econômica e institucional.

É a população negra que, historicamente, tem perdido o direito pleno à cidade, sendo empurrada cada vez mais para longe dos centros econômicos e turísticos. Muitos vivem em condições precárias nas periferias e favelas. Os terreiros de matriz africana continuam enfrentando a intolerância religiosa, com espaços sagrados violados e lideranças ameaçadas ou assassinadas. A mão de obra mais precarizada é composta, em sua maioria, por pessoas negras, enquanto sua presença nos espaços de poder permanece desproporcionalmente reduzida. Somam-se a isso o déficit educacional, o encarceramento em massa e o fato de que a maior parte das vítimas da violência letal no país também é negra.

Conhecer a história do nosso povo e interpretá-la de maneira crítica — e não apenas como uma curiosidade do passado — é um passo fundamental para transformar essa realidade de opressão, cujas raízes remontam ao período da escravidão e à resistência dos quilombos. Salvador, a Bahia e o Brasil possuem uma dívida histórica com os povos negros e indígenas. Basta observar os avanços conquistados e, sobretudo, reconhecer tudo aquilo em que ainda permanecemos estagnados ou, em alguns casos, retrocedemos.

Que a força do Kabula mantenha viva a nossa resistência e inspire a construção de uma sociedade verdadeiramente livre, justa e igualitária.
Josias Gomes
Engenheiro Agrônomo, ex-deputado federal, devoto da Padilha Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas da Bahia.
