O DIA EM QUE GUIMARÃES ROSA DESCOBRIU UM ÉPICO NO SERTÃO BAIANO
A Marquinhos de Cipó: prefeito de Caldas de Cipó e filho do sertão.
Porque há homens que não pertencem apenas ao seu tempo, mas também à paisagem que os formou. Sertanejo forte e resistente, traz na alma a coragem da caatinga e o espírito acolhedor de sua gente. Que esta crônica seja uma homenagem à cidade que administra com orgulho e ao povo que mantém viva a mesma terra que um dia encantou João Guimarães Rosa.
O DIA EM QUE GUIMARÃES ROSA DESCOBRIU UM ÉPICO NO SERTÃO BAIANO.
Quem nunca atravessou a caatinga talvez imagine um lugar de pobreza vegetal, um mundo de galhos secos castigados pelo sol. É um engano comum de quem apenas passa por ela sem aprender a olhá-la.
A caatinga não se entrega ao primeiro olhar.
É preciso esperar a luz da manhã dourar os mandacarus, ver o verde persistente dos juazeiros desafiando a estiagem, sentir o perfume da umburana aquecida pelo calor do sertão, observar as flores repentinas dos ipês e dos cactos depois da chuva, acompanhar o voo das araras e dos periquitos rasgando o céu azul, ouvir o canto da asa-branca anunciando esperança. A paisagem parece áspera, mas guarda uma delicadeza que só se revela aos que sabem contemplá-la. É uma beleza construída pela resistência. Foi essa paisagem que recebeu João Guimarães Rosa em junho de 1952. Não fora o acaso que o levou até Caldas do Cipó.

Dias antes, no Rio de Janeiro, o telefone tocou. Do outro lado da linha estava Assis Chateaubriand, o poderoso proprietário dos Diários Associados. Queria que Rosa fosse à Bahia acompanhar um acontecimento singular: a inauguração do Grande Hotel Caldas do Cipó, empreendimento que pretendia transformar uma pequena estância hidromineral do sertão baiano no mais elegante destino turístico do Nordeste.
Mas Chateaubriand conhecia o homem que convidava. Sabia que Guimarães Rosa não se interessava apenas por solenidades. Interessava-se pelas pessoas. Rosa perguntou à filha Vilma que roupa deveria usar. Ela sugeriu uma calça jeans, botas e uma jaqueta de couro. Diante da dúvida, telefonou ao próprio Chateaubriand. O empresário resolveu a questão imediatamente: mandou ao apartamento do escritor um traje completo de vaqueiro — chapéu, gibão, guarda-peito, jaleco, perneiras e polainas, tudo confeccionado em couro.
Ao vestir a roupa diante do espelho, Rosa brincou:
— “Venha correndo, Vilminha! Estou parecendo o John Wayne.” Ator do faroeste americano.

Dias depois, embarcou para a Bahia.
Na manhã de 24 de junho, Dia de São João, a caatinga despertava sob um céu de um azul quase infinito. O inverno sertanejo tornava o clima ameno. O sol iluminava a vegetação com uma luz dourada, fazendo o couro dos vaqueiros reluzir como bronze antigo. Ao longe, o pequeno campo de aviação de Caldas do Cipó já estava tomado.
Centenas de cavalos desenhavam manchas vivas sobre a terra avermelhada. Homens encourados conversavam em pequenos grupos. O cheiro do couro misturava-se ao perfume da vegetação sertaneja e à poeira fina levantada pelo vento. Guimarães Rosa caminhava entre eles.
Não fazia perguntas apressadas.
Escutava.
Aprendia.

Conversou com João Aristides do Nascimento, o Aristério, que lhe contou não haver um único osso do corpo que nunca tivesse quebrado na vida de vaqueiro. Ouviu João Fão relatar a tragédia dos filhos Minervino e Edmundo, mortos ao tentar salvar uma pequena vaca atolada num riacho. Eram histórias duras, mas narradas com uma serenidade que só o sertão parece ensinar. Naquele instante, Rosa compreendeu que aqueles homens carregavam epopeias inteiras sem jamais terem escrito uma única página.
Era exatamente o Brasil que procurava.
Então alguém apontou para o horizonte.
Um pequeno ponto metálico apareceu no céu.
O ronco grave dos motores começou distante e foi crescendo até dominar completamente a paisagem.
Era o Douglas DC-3 presidencial.
A aeronave fez uma curva elegante sobre a caatinga antes de alinhar-se com a pista de terra. Quando as rodas tocaram o chão, levantaram uma imensa nuvem de poeira avermelhada.
Por um instante, parecia que todo o sertão havia prendido a respiração.
A porta do avião abriu-se lentamente.
Getúlio Vargas surgiu no alto da escada.
À sua frente não estavam tropas militares.
Estavam cerca de seiscentos vaqueiros encourados, montados em seus cavalos, formando uma guarda de honra como jamais a República havia visto. E entre eles encontrava-se João Guimarães Rosa. Vestia gibão, chapéu de couro, guarda-peito e perneiras. Também estava montado. Mais tarde, escreveria ao pai:
“O passeio à Bahia, sim, esse foi notável. Em Caldas do Cipó, pude ver reunidos — espetáculo inédito nos anais sertanejos — cerca de seiscentos vaqueiros autênticos dos encourados…”

E continuaria:
“Fui com Assis Chateaubriand e tive de vestir também o uniforme de couro e montar a cavalo (…), formando na guarda vaqueira que foi ao campo de aviação receber o presidente Getúlio Vargas. A mim coube comandar os vaqueiros de Soure e de Cipó. Aprendi muita coisa.”
Essa talvez seja a frase mais importante de toda aquela viagem.
“Aprendi muita coisa.”
Porque Guimarães Rosa não foi a Caldas do Cipó apenas assistir à inauguração de um hotel.
Foi aprender o sertão.
Depois da recepção, o cortejo seguiu lentamente em direção ao Grande Hotel Caldas do Cipó.
À frente, cavalgavam os vaqueiros.
Atrás deles, seguia o automóvel presidencial.
Nas margens do caminho, milhares de pessoas saudavam Getúlio Vargas.

O imponente edifício art déco surgia quase como um miragem no coração da caatinga. Salões elegantes, piscinas termais, lustres, mármores e jardins conviviam, naquele dia, com os homens de couro e seus cavalos.
Não havia contraste.
Havia encontro.
Ali, a modernidade abraçava uma das tradições mais antigas do Brasil.
Ao regressar ao Rio de Janeiro, Guimarães Rosa adoeceu e permaneceu vários dias recolhido. Mas sua imaginação continuava cavalgando pelas veredas baianas. Releu Euclides da Cunha, reencontrou José de Alencar e compreendeu que aqueles vaqueiros eram protagonistas de uma epopeia brasileira ainda pouco contada.
Daquela experiência nasceu “Pé-duro, chapéu-de-couro”, texto reunido em Ave, Palavra.
Ali, Rosa não descreve apenas vaqueiros.
Descreve uma civilização.
Hoje, quem visita Caldas do Cipó talvez encontre o silêncio das águas termais, o velho Grande Hotel e a serenidade do sertão.
Mas basta fechar os olhos para ouvir novamente o tropel dos cavalos, sentir o cheiro do couro curtido, ver o DC-3 surgindo sobre a caatinga e imaginar Guimarães Rosa cavalgando entre seiscentos vaqueiros.

Naquele 24 de junho de 1952, ele não encontrou apenas uma cerimônia oficial. Encontrou o Brasil profundo.
E descobriu que o verdadeiro épico nacional não estava nos palácios da República. Estava ali, entre mandacarus, umbuzeiros, juazeiros e homens de couro que aprenderam com a caatinga a transformar resistência em modo de viver. É por isso que, mais de setenta anos depois, Caldas do Cipó continua sendo muito mais do que um lugar no mapa: permanece como um território da memória, onde a literatura encontrou a história e ambas descobriram, no coração do sertão baiano, a verdadeira grandeza do Brasil.
Eu, por minha vez, talvez nunca tivesse conhecido esse extraordinário episódio da história de Caldas do Cipó se não tivesse cruzado as páginas da admirável biografia de Guimarães Rosa escrita por Leonêncio Nossa. Foi ali que descobri a viagem do escritor ao sertão baiano, seu encontro com os vaqueiros, sua participação na guarda de honra que recebeu Getúlio Vargas e o encantamento que mais tarde se transformaria em literatura. Ao chegar a Cipó, compreendi que os livros, às vezes, fazem o caminho de volta. Primeiro nasceu a viagem; depois veio a literatura.

Décadas mais tarde, foi a literatura que me conduziu novamente à viagem.
E foi então que percebi que Guimarães Rosa continua chegando a Caldas do Cipó. Não mais de avião, nem montado entre seiscentos vaqueiros encourados, mas nas páginas de seus livros, na memória de seu povo e na beleza resistente da caatinga, onde a história insiste em florescer como o mandacaru depois da chuva.
Josias Gomes
Engenheiro Agrônomo, ex-Deputado Federal, devoto da Padilha Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas da Bahia.
