Entre o Morrão e Amaraji: um reencontro na Chapada Diamantina
Quando a estrada se aproxima do Vale do Capão, o olhar é capturado por uma sucessão de montanhas que parecem erguidas para guardar os segredos da Chapada Diamantina. O céu azul, intenso e sem fim, desenha o contorno das serras, enquanto a vegetação da caatinga se espalha pelos vales numa demonstração silenciosa de resistência e beleza.
Foi numa manhã luminosa que avistei o Morrão. Imponente, com seus paredões esculpidos por milhões de anos de vento e chuva, ele se ergue diante do viajante como um monumento natural. Não é apenas uma montanha. É uma presença. De longe, sua silhueta domina a paisagem; de perto, revela detalhes que a distância esconde: as marcas do tempo nas rochas, as sombras que mudam de lugar ao longo do dia e a vegetação que desafia a aridez para florescer entre pedras e encostas.
Ao fundo, a Serra do Sincorá desenha um horizonte majestoso. Suas formas suaves e, ao mesmo tempo, grandiosas lembram que a natureza trabalha em escalas que ultrapassam a existência humana. O vale se abre entre montanhas, riachos e caminhos antigos, formando uma das paisagens mais belas da Bahia.
A caatinga, tantas vezes associada apenas à seca, revela ali outra face. Exuberante, diversa e cheia de vida, cobre morros e vales com uma combinação de tons verdes, cinzentos e dourados. É um bioma que ensina a arte da sobrevivência, transformando escassez em abundância e adversidade em adaptação.
Viajar pelo Vale do Capão é compreender que a Chapada Diamantina não é feita apenas de pedras, montanhas e paisagens. Ela também é feita de pessoas. Homens e mulheres que chegaram de diferentes lugares, encontraram naquele pedaço de sertão um destino e ali construíram suas histórias.
Entre essas histórias está a de Jasiel Mariano, meu conterrâneo de Amaraji, em Pernambuco, que há mais de quinze anos escolheu a Chapada Diamantina como lugar para viver. Mais precisamente, estabeleceu-se na centenária cidade de Palmeiras, um município cuja história nasceu do ciclo do diamante e que, hoje, é reconhecido como um dos principais portais de entrada para o Parque Nacional da Chapada Diamantina e para o ecoturismo brasileiro.

Palmeiras soube reinventar-se. Depois da riqueza proporcionada pelo garimpo e das dificuldades provocadas pelo seu declínio, encontrou na exuberância de sua natureza um novo caminho para o desenvolvimento. Hoje, visitantes do Brasil e do mundo percorrem suas trilhas, contemplam suas cachoeiras e se encantam com a beleza do Vale do Capão, do Morrão, da Serra do Sincorá e de tantas outras maravilhas que fazem da Chapada um dos lugares mais fascinantes do país.
Foi nesse cenário que Jasiel decidiu reconstruir sua própria história.
Conheço a família Mariano desde os tempos do Engenho Estiva. Seu pai, Zé Mariano, mora até hoje em Amaraji. Convivi também com Bibiu, figura muito querida e que já não está mais entre nós. Lembro-me de Dona Alaíde, tia de Josiel, mãe de Tunda, Zequinha e tantos outros cujos nomes a memória já não alcança. Ela continua morando na mesma casa, em frente à antiga estação ferroviária. Recordo também de Maíca, outra tia, costureira talentosa que durante muitos anos confeccionou as roupas de nossa família. Na origem dessa respeitada família estava o patriarca, seu Luís Mariano.
Essas lembranças demonstram que o tempo pode nos afastar geograficamente, mas jamais apaga os laços construídos na infância.
Depois de trabalhar como engenheiro civil na Usina União e Indústria, Jasiel veio para a Bahia em 2007. Inicialmente estabeleceu-se em Juazeiro, contratado pela Construtora Terta para participar da construção de conjuntos habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida em cidades como Juazeiro, Petrolina, Feira de Santana e outros municípios da região.
Foi justamente durante esse período que conheceu a Chapada Diamantina. Bastou uma visita para nascer um encantamento definitivo. As montanhas, o clima, a tranquilidade e a beleza da região fizeram com que decidisse fincar ali suas raízes.
Com espírito empreendedor, iniciou sua trajetória como empresário da construção civil, adquirindo terrenos e construindo casas no Vale do Capão. O trabalho sério, aliado à perseverança, produziu os resultados esperados. Hoje vive com conforto e tranquilidade. Como ele próprio me disse, com a simplicidade característica dos homens do interior: “Não sou rico, mas o que tenho dá para viver bem.”
Durante minha passagem pela Chapada tive o privilégio de conhecer sua bela residência, perfeitamente integrada à paisagem que a cerca. Fomos recebidos com a hospitalidade típica dos filhos de Amaraji. À mesa, uma saborosa galinha de capoeira e um delicioso churrasco de bode. O exagero ficou por conta da fartura. Meu irmão Joel, sempre espirituoso, comentou que a quantidade de carne comprada por Josiel seria suficiente para alimentar boa parte da população de Amaraji.
Entre boas conversas, risadas e lembranças da infância, compreendi que algumas raízes nunca deixam de alimentar a nossa identidade.
Jasiel construiu sua vida na Chapada Diamantina, prosperou pelo próprio esforço e encontrou em Palmeiras o lugar onde realizou seus projetos. Mas Amaraji continua viva dentro dele. Sempre que pode, retorna à terra natal para rever familiares, amigos e renovar os vínculos com o lugar onde sua história começou.
Ao despedir-me daquele encontro, contemplando novamente o Morrão recortando o céu da Chapada, tive a sensação de que a geografia pode separar cidades por centenas de quilômetros, mas jamais consegue afastar aqueles que carregam a mesma origem no coração.
A Chapada Diamantina ganhou um bom filho. Amaraji, porém, nunca perdeu um dos seus.
Aproveito este reencontro para registrar uma homenagem especial ao amigo e conterrâneo Jasiel Mariano, que celebra seu aniversário no dia 1º de julho. Desejo-lhe muita saúde, paz, felicidade e muitos anos de vida, para que continue colhendo os frutos do trabalho, da perseverança e da generosidade que marcam sua trajetória. Que Deus o abençoe sempre e lhe conceda novas alegrias ao lado de sua família. Receba meu abraço fraterno e os mais sinceros parabéns.
Josias Gomes,
Chapada Diamantina – 1 de junho de 2026
