João Gomes: gratidão aos mestres e o futuro da nossa música
“Honrar pai e mãe” é um princípio moral e espiritual que todo nordestino de respeito segue à risca. Na vida, esse ensinamento deve ser seguido em reverência aos nossos mestres. João Gomes sabe disso e mostra diariamente sua gratidão e reverência àqueles que o precederam, seja por meio de depoimentos, seja na valorização das obras de artistas como Santanna e Petrúcio Amorim.
Vivemos um momento crucial, não somente no forró e na música nordestina, mas na Música Popular Brasileira (MPB) de forma geral. A indústria da música, muitas vezes controlada pelos streamings, redes sociais e pelo ecossistema de contratações, privilegia as músicas virais — aqueles sucessos estrondosos que não passam de um verão na memória coletiva —, enquanto músicas mais elaboradas, com letras mais profundas, tendem a ser consumidas por um público mais fiel e restrito. E o futuro?
O futuro está exatamente em artistas como João Gomes, que lançam músicas novas sem, no entanto, esquecer seus mestres, tanto com composições que dialoguem com esse universo quanto na releitura das obras clássicas. O poder público também pode incentivar o resgate da música brasileira com festivais, museus e fomento ao ensino e à pesquisa sobre o nosso forró, a MPB, a Bossa Nova e demais movimentos regionais. Pode, ainda, definir critérios para a manutenção da tradição de festas como o São João.
Não se trata de ser saudosista nem de deixar de reconhecer que temos novos talentos. Mas a verdade é que, no século XX e no início do século XXI, o Brasil produziu a melhor e mais diversa música do mundo — reconhecida não apenas por especialistas locais, mas também por estudiosos do mundo inteiro. Somos o berço de Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga, João Gilberto, Tom e Vinícius, Caetano e Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia, Elis Regina, Gal, Zeca Pagodinho, Nação Zumbi, Dominguinhos, Elba e Zé Ramalho, Rita Lee, Ivete e João Gomes. Somos o país do samba, do forró, do frevo, do axé, da Bossa Nova, da MPB, do Tropicalismo e de muito mais. Temos o dever de manter essa qualidade e diversidade musical, sem a qual o Brasil perde sua essência enquanto nação plural.
Parabéns, João Gomes! Sucesso de verdade é aquele que vem acompanhado de uma causa coletiva. Lutemos pelo nosso legado musical e cultural. “O novo sempre vem”, mas não podemos esquecer quem nos trouxe até aqui.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino.
