O vaqueiro por trás da lenda: “A Morte do Vaqueiro”
Paulo Henrique Leitão conta a saga do maior vaqueiro do Sertão: Raimundo Jacó! O vaqueiro pernambucano era afamado em todo o Nordeste; sua figura de guerreiro das caatingas causava admiração em todas as classes, mas também atraía inveja naquele que viria a ser a estrela maior dos vaqueiros sertanejos.
A morte trágica e covarde de Raimundo Jacó fez o sertão chorar, vaqueiros irem para a labuta enlutados e a fé sertaneja se multiplicar com a missa do vaqueiro — tudo entrelaçado por um sentimento de injustiça, vilã maior dos heróis populares. O vaqueiro dos vaqueiros morreu de forma vil, tendo apenas o palco onde ele reinou e o seu fiel cachorro como testemunha.


Por obra do destino, Raimundo Jacó era primo do rei dos reis da música nordestina, Luiz Gonzaga, que, tomado de dor e indignação, junto com Nelson Barbalho compôs a lendária canção “A Morte do Vaqueiro”. Não há nordestino nem brasileiro de boa fé e conhecedor da cultura nordestina que não sinta na alma cada verso e o choro da sanfona nesta homenagem póstuma a Raimundo Jacó.
O lamento de Gonzaga inicia a música aboiando e trazendo a memória de Jacó, que tantas vezes brilhou nas pegadas de boi das caatingas. Então, o rei do baião declama:
“Numa tarde bem tristonha
Gado muge sem parar
Lamentando seu vaqueiro
Que não vem mais aboiar
Não vem mais aboiar
Tão dolente a cantar
Tengo, lengo, tengo, lengo
Tengo, lengo, tengo”.

Mais do que mitificação, a história de Raimundo Jacó, imortalizada por Luiz Gonzaga e outros atores, valoriza todos os vaqueiros nordestinos — verdadeiros patrimônios históricos, culturais e imateriais do Nordeste. Maiores responsáveis pela interiorização do país a partir do século XVII, símbolo de coragem e resistência, são os primeiros desbravadores da Caatinga. “A Morte do Vaqueiro” aconteceu em 1954, e 72 anos depois estamos aqui a contar este capítulo singular do nosso povo sertanejo.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino
