PEDRO ALEXANDRE: ENTRE O ALGODÃO, O SERTÃO E A FORÇA DO TRABALHO
O sertão que transformou um homem em nome de cidade
Sempre me chama atenção quando uma cidade carrega o nome de alguém que não foi governador, presidente ou grande militar, mas um homem do trabalho, do comércio e da capacidade de transformar a realidade ao seu redor. Pedro Alexandre, no Território de Identidade Semiárido Nordeste II, é um desses casos.
Localizado no nordeste da Bahia, a cerca de 436 quilômetros de Salvador, o município integra uma região marcada pela resistência do povo sertanejo diante das secas periódicas, da escassez de recursos e das dificuldades históricas de infraestrutura. Com pouco mais de 16 mil habitantes, Pedro Alexandre preserva uma forte identidade rural, construída ao longo de gerações que aprenderam a conviver com os desafios do semiárido. Mas antes de receber o nome atual, a localidade percorreu um longo caminho histórico.
Das lagoas ao município
A origem do povoamento remonta ao antigo arraial conhecido como Lagoa da Caiçara, nome associado a uma lagoa construída pelos próprios moradores para reunir animais, armazenar água e facilitar a sobrevivência da comunidade.
Mais tarde, por volta da década de 1950, a localidade passou a ser chamada de Serra Negra, referência à paisagem da região.

Em seguida, o IBGE propôs a denominação Voturuna, mas a população nunca incorporou verdadeiramente aquele nome ao seu cotidiano. Foi somente com a emancipação política, em 28 de julho de 1962, durante o governo de Juracy Magalhães, que surgiu o consenso em torno de uma nova denominação: Pedro Alexandre.
A escolha não foi casual.
Representava o reconhecimento coletivo a um homem cuja trajetória se confundia com a própria história do desenvolvimento econômico local.
Quem foi Pedro Alexandre?
Pedro Alexandre de Carvalho nasceu em 25 de abril de 1865, em Entre Montes, povoado pertencente ao município de Piranhas, em Alagoas.
Ainda criança, por volta dos sete anos de idade, foi levado para a região pelo pai adotivo, conhecido simplesmente como Alexandre.
O sertão que encontrou era pobre, isolado e baseado quase exclusivamente na agricultura de subsistência.

Desde muito jovem demonstrou disposição incomum para o trabalho.
Aos doze anos já participava das atividades produtivas da família.
Poucos anos depois passou a atuar no comércio regional, transportando mercadorias em tropas de mulas por longas distâncias.
Percorria caminhos que ligavam a região a cidades de Sergipe e Alagoas, como Carira, Poço Redondo, Capela, Penedo, Pão de Açúcar e sua terra natal, Piranhas.
Essas viagens permitiram ampliar seus conhecimentos comerciais e fortalecer as conexões econômicas do sertão.
O algodão e a transformação econômica


A principal contribuição de Pedro Alexandre para a região foi a introdução e expansão da cultura do algodão. Naquele período, a indústria têxtil constituía um dos setores mais importantes da economia nordestina, gerando demanda crescente pela fibra. Enquanto a economia local permanecia baseada em culturas voltadas apenas para a sobrevivência das famílias, Pedro Alexandre percebeu que o algodão poderia gerar renda e inserir a região em mercados mais amplos. Sua iniciativa ajudou a modificar o perfil produtivo do território. A cultura algodoeira passou a gerar emprego, movimentar o comércio e integrar o sertão às rotas econômicas regionais.
Por isso, décadas depois, quando a cidade conquistou sua autonomia política, seu nome foi escolhido para representar a nova etapa da história local.
Família, comunidade e liderança

Pedro Alexandre casou-se com Guilhermina Maria da Conceição, formando uma numerosa família de quatorze filhos. Como ocorria frequentemente no sertão da época, a família constituía não apenas um núcleo afetivo, mas também uma unidade produtiva e social. Seu prestígio não se limitava às atividades econômicas.
Era reconhecido como homem de palavra, conselheiro e liderança respeitada pela comunidade.
Sua influência ajudou a consolidar o povoado e a fortalecer os vínculos sociais que sustentariam o crescimento da localidade ao longo das décadas seguintes. Faleceu em 23 de fevereiro de 1925, aos 60 anos, sem imaginar que seu nome seria eternizado no mapa da Bahia.
A economia sertaneja de hoje

Atualmente, Pedro Alexandre mantém sua vocação agropecuária.
A agricultura familiar continua sendo a principal base econômica do município, destacando-se culturas adaptadas ao semiárido, além da criação de caprinos, ovinos e bovinos.
As feiras livres permanecem como espaços fundamentais de circulação econômica e convivência social, preservando tradições que atravessam gerações.
A vida comunitária continua profundamente ligada à terra e aos ciclos climáticos do sertão.
Memória e pertencimento
A história de Pedro Alexandre mostra que o desenvolvimento do interior brasileiro nem sempre nasceu de grandes projetos governamentais.
Muitas vezes surgiu da iniciativa de homens e mulheres que enxergaram possibilidades onde outros viam apenas dificuldades. Ao dar seu nome ao município, a população preservou a memória de alguém que ajudou a transformar a economia local e abriu caminhos para as gerações futuras.

Hoje, a cidade de Pedro Alexandre simboliza essa herança de trabalho, perseverança e capacidade de adaptação.
Uma herança que continua viva no cotidiano de seu povo.
Porque, no sertão, a história raramente é escrita apenas pelos grandes acontecimentos.
Ela costuma ser construída, dia após dia, pelo esforço silencioso daqueles que ajudam uma comunidade inteira a crescer.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino
