Pelourinho: entre as marcas da escravidão e a expulsão dos antigos moradores
“Voz Baiana” faz um resgate histórico essencial da Bahia ao contar a história de um dos lugares mais conhecidos de Salvador por brasileiros e pessoas do mundo inteiro: o Pelourinho.
Não bastassem as profundas chagas do passado escravista do Pelourinho, onde pessoas escravizadas eram amarradas e flageladas para servir de exemplo à população, seus descendentes também foram expulsos dos casarões que a própria elite baiana havia abandonado.
Esse processo de expulsão das camadas populares de áreas de interesse imobiliário e econômico é uma prática comum no Brasil. É o que chamamos de gentrificação: a transformação de uma área urbana, geralmente desvalorizada, a partir da chegada de moradores e investimentos de maior poder aquisitivo. Esse processo provoca a valorização imobiliária e, consequentemente, o afastamento de antigos moradores e comerciantes locais, que já não conseguem arcar com os novos custos de vida.
Na Bahia da época de ACM, apesar de Salvador ter uma das maiores proporções de população negra do Brasil, pouco se avançou no enfrentamento das consequências históricas da escravidão, cujos desdobramentos produziram profundas mazelas socioeconômicas, inclusive no acesso à moradia. A expulsão dos antigos moradores do Centro Histórico é um exemplo claro desse processo.
Essa realidade também se estende às comunidades de pescadores, aos descendentes de quilombolas e às marisqueiras que vivem em regiões da orla da capital. Ao longo do tempo, muitos desses grupos foram sendo afastados da linha costeira e deslocados para as periferias, o Subúrbio Ferroviário ou as ilhas. Essa dinâmica também está relacionada à segregação socioespacial, que afasta populações de menor renda dos espaços urbanos mais valorizados.

A falta de moradia, agravada pela elitização de determinadas áreas das cidades e, em grande medida, pela especulação imobiliária, é um dos maiores desafios sociais do Brasil. Segundo dados do IBGE, o país possui quase o dobro de imóveis vagos em relação ao seu déficit habitacional: são 11,4 milhões de domicílios particulares vagos. Em contrapartida, o déficit habitacional brasileiro — indicador calculado pela Fundação João Pinheiro (FJP), que considera famílias em situação de coabitação forçada, residentes em habitações precárias ou submetidas ao ônus excessivo com o aluguel — gira em torno de 6 milhões de moradias.
Compreender as relações históricas que moldaram nossa cidade nos ajuda a reconhecer os erros do passado e a construir caminhos para transformar essa triste realidade. Milhões de famílias, não apenas em Salvador, mas em todo o país, ainda não têm acesso a uma moradia digna, enquanto poucos concentram os ganhos de um mercado imobiliário que reproduz desigualdades históricas, cujas raízes remontam ao período colonial.
Essa realidade faz com que inúmeras famílias enfrentem dificuldades para conquistar e manter o próprio teto. Discutir a história do Pelourinho, portanto, é também refletir sobre o direito à cidade, a justiça social e a necessidade de garantir que o desenvolvimento urbano não aconteça à custa da expulsão de quem ajudou a construir a identidade e a riqueza cultural de Salvador.
Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
