Quando o açúcar virou arte e a saudade reencontrou o tempo
Há lugares que parecem desafiar o tempo. A antiga Usina Santa Teresinha é um deles.
Durante décadas, foi uma das três maiores produtoras de açúcar de Pernambuco. Espalhados por mais de cinquenta engenhos próprios, seus canaviais alimentavam uma extensa malha ferroviária que transportava a matéria-prima até a fábrica, onde as engrenagens trabalhavam sem descanso. Ali, milhares de homens e mulheres construíram suas vidas, enquanto a cana movia a economia da Zona da Mata.

Foi também nesse universo que cresceu Amaro, nosso craque de bola. Nascido em Palmares, passou a infância e parte da adolescência nos arruados da usina.
Toda vez que volto àquele lugar, uma lembrança insiste em reaparecer.
Era a década de 1970. O time do Colégio Agrícola de Belo Jardim foi disputar uma partida na usina. Amaro vestia nossa camisa e jogava como sempre: com talento de sobra. Vencemos por 3 a 0. Confesso que já não me lembro quem marcou os gols. Talvez ele tenha feito algum deles.

Mas nunca esqueci que fui o árbitro daquela partida.
No meio do jogo, alguém me contou que o Sport acabara de marcar um gol. Esqueci por um instante minha condição de juiz e comemorei em plena arbitragem. A torcida olhou sem entender absolutamente nada. Ainda hoje rio dessa cena.

Mas a história da usina não terminou quando cessou o apito da fábrica.
Quando a Santa Teresinha deixou de moer cana e entrou no chamado “fogo morto” parecia que seu destino seria o mesmo de tantas outras usinas pernambucanas: o abandono.
Foi então que um de seus herdeiros, Ricardo Pessoa de Queiroz resolveu reinventar aquele espaço. Em vez de produzir açúcar, passou a produzir arte.

E que arte!
Hoje, quem percorre a Usina de Arte encontra um imenso labirinto de vidro estilhaçado por marcas de tiros; uma horta onde brotam nove mil legumes e verduras moldados em barro; uma gigantesca vulva de trinta e três metros rasgando a encosta de uma montanha; além de dezenas de esculturas monumentais espalhadas pela paisagem. São mais de quarenta obras de artistas brasileiros e estrangeiros, integradas à natureza num dos mais belos museus a céu aberto do país.

Mas a verdadeira razão de nossa viagem não eram apenas as obras de arte.
Como eu já estaria em Pernambuco, resolvi convocar alguns dos velhos “capagatos” da nossa turma de Belo Jardim, justamente no ano em que completamos cinquenta anos de formados. A ideia era simples: reencontrar os amigos e atualizar a prosa.

O convite foi aceito.
Vieram Amaro, nosso anfitrião, acompanhado de Maria Vitória, sua companheira e coanfitriã de rara gentileza; Gláucio Barros, ao lado da amável Zélia Cavalcanti, que há tempos tentava convencer o marido a conhecer a Usina de Arte — missão que enfim foi cumprida. Zélia ainda merece os nossos agradecimentos pela persistência.
Também chegaram Petrônio Rodrigues e sua companheira Núbia Cristiane; Catagoro de Belo Jardim;
Tonho Cebinho; Everaldo Sobral; e, fechando a roda com chave de ouro, nosso querido professor Samuel Salgado. À minha comitiva foi formada pela minha companheira Cecília, meu irmão Joel Gomes e minha filha Letícia, que amam revisitar esta terra de histórias e encantos.

Samuel foi alvo das brincadeiras mais carinhosas. Afinal, fomos sua primeira turma como professor do Colégio Agrícola. Éramos seus alunos “cobaias”. Em compensação, fizemos questão de acolhê-lo naquele início de carreira, deixando-o à vontade para vencer o natural nervosismo de quem começava a ensinar.
Nosso guia nos conduziu por um passeio que misturava arte, história e memória. Em determinado momento, falou de seu pai Manoel Alves, antigo chefe do almoxarifado da usina. Mostrou antigas anotações feitas por ele. Impressionava a beleza da caligrafia de um homem que praticamente não tivera acesso à educação formal.
Era como se cada objeto exposto guardasse também um pedaço da história das pessoas que viveram ali.
A paisagem fazia o resto. Caminhávamos entre árvores, jardins e esculturas monumentais. A cada curva surgia uma nova surpresa. Era impossível não se encantar.
Mas como acontece em todo reencontro de velhos amigos, as melhores obras de arte acabaram sendo as histórias.
Tonho Cebinho monopolizou boa parte das gargalhadas. Alguém sugeriu, com inteira justiça, que ele deveria entrar para o Livro dos Recordes. Afinal, foi secretário municipal dezesseis vezes, vice-prefeito por oito anos e, se lhe derem mais um tempinho, ainda é capaz de tocar triângulo com as orelhas.
O almoço na Pousada e Churrascaria Eucalipto prolongou a conversa.
Gláucio, o eterno filho do “Home”, virou alvo das brincadeiras. Segundo Tonho, quando a comida do refeitório do internato ficava impossível de engolir, Gláucio dava um jeito de “serrar a boia” na casa de Dr. Jairo.
Foi então que Everaldo Sobral puxou outra lembrança.
Recordou minha participação na campanha eleitoral de 1976, em Cachoeirinha, quando apoiei Deo Pipoca, candidato do MDB à prefeitura.
Naquele tempo eu vivia percorrendo cidades da região, participando de comícios em Belo Jardim, Tacaimbó, Sanharó e outros municípios. Até que Dr. Jairo resolveu colocar um freio em minha militância.
Chamou-me e disse, com sua autoridade de diretor e quase pai dos alunos internos, que o clima político poderia descambar para a violência e que sua responsabilidade era proteger todos nós. A partir daquele dia, estavam proibidas minhas participações em campanhas eleitorais.
A decisão criou uma situação curiosa.
Eu já havia acertado com o então deputado federal Zé Mendonça, da ARENA, que participaria da campanha de seu candidato em Belo Jardim. Em troca, ele pagaria minha inscrição no vestibular — e também a de alguns colegas.
Recebi o dinheiro.
Veio a proibição.
Não participei da campanha.
Mas a inscrição foi paga e não devolvi o restante do dinheiro, afinal a proibição é que me impediu de cumprir o trato.
O destino, como sempre, gosta de escrever bons roteiros.
Em 2002, já eleito deputado federal, encontrei Zé Mendonça no plenário da Câmara dos Deputados. Aproximei-me e disse:
— Deputado, preciso lhe agradecer. O senhor ajudou a formar um engenheiro agrônomo.
Ele me olhou sem entender.
Contei toda a história de 1976 e ainda me ofereci para devolver o dinheiro corrigido.
A resposta foi uma sonora gargalhada.
Achou a história tão divertida que chamou os demais deputados pernambucanos para que eu a repetisse.
As lembranças continuavam brotando.
Petrônio recordou uma viagem de trem que fizemos entre Recife e Maceió, quando passei alguns dias hospedado na casa de uma irmã dele. Lembro-me de ter ficado encantado com sua biblioteca. Foi ali que mergulhei ainda mais fundo nos livros de Jorge Amado e Graciliano Ramos.
Tonho, por sua vez, lembrou-se da visita que fiz à sua casa antes de partir para Rondônia, levando comigo sonhos, coragem e a incerteza de quem começa uma nova etapa da vida.
São encontros assim que mantêm viva a memória.
O internato nos ensinou muito mais do que disciplinas escolares. Ali aprendemos solidariedade, amizade, responsabilidade e construímos laços que resistem ao tempo.
Neste ano celebramos cinquenta anos de formados.
Amaro, sempre dono de uma memória invejável, lembrou imediatamente a data exata da nossa formatura: 8 de dezembro de 1976.
Agora estamos organizando uma grande celebração.
Há uma festa dos Catagatos prevista para o primeiro fim de semana de novembro em Gravatá. Quem sabe não seja essa a oportunidade perfeita para reunir novamente essa turma que o tempo espalhou, mas que a amizade insiste em manter unida?
Porque algumas colheitas nunca terminam.
A cana deixou de ser moída.
Mas a amizade continua produzindo uma doce safra de lembranças.
Josias Gomes
Devoto de Padim Ciço e orgulhoso de ser nordestino
