Relatos da viagem à Amaraji
Uma viagem pela história, pela cultura e pelas minhas próprias raízes.
Com uma delegação de 19 pessoas da Bahia, entre assessores, companheiros e companheiras de Ilhéus, visitamos Pernambuco entre a última sexta-feira e o domingo. Foi uma viagem pela história, pela cultura, pelas instituições e, sobretudo, pelas minhas próprias raízes.
Nossa delegação, formada por integrantes do meu gabinete, por minha esposa e companheiro e companheira de Ilhéus, percorreu alguns dos lugares mais importantes da história pernambucana. Visitamos Recife, Olinda e Igarassu, cidades que guardam marcas fundamentais da formação de Pernambuco; passamos pelo Monte dos Guararapes, cenário de episódios decisivos da história colonial brasileira; estivemos em Gravatá e Chã Grande, onde visitamos o Engenho Sanhaçu, produtor da cachaça que leva o mesmo nome.
Mas havia, desde o início, um destino que tinha para mim um significado diferente de todos os outros: Amaraji.
Amaraji não era apenas uma das cidades do roteiro. Era a minha terra. O lugar onde nasci, onde estão algumas das minhas primeiras lembranças e de onde partiram muitos dos caminhos que me trouxeram até aqui.
Por isso, embora a viagem tenha sido por Pernambuco, ela foi também, de certa maneira, uma viagem de volta para casa.

Recife: história, cultura e encontro de águas
Começamos pelo Recife, cidade construída entre rios, pontes, ilhas e mar.
Visitamos o Marco Zero, coração simbólico do Recife, e percorremos lugares que ajudam a compreender a riqueza cultural e histórica da cidade. Estivemos no Paço do Frevo, dedicado a uma das mais expressivas manifestações da cultura pernambucana, e passamos pela Rua do Bom Jesus, onde está a Sinagoga Kahal Zur Israel, reconhecida como a mais antiga sinagoga das Américas.
Fundada durante o período da presença holandesa, ela testemunha a diversidade religiosa e cultural que marcou o Recife do século XVII.
Também visitamos igrejas e caminhamos pelas ruas do Recife Antigo.

Uma mesa que também conta a história
Ao meio-dia, almoçamos no Restaurante Leite, fundado em 1882 e reconhecido como o restaurante mais antigo em funcionamento contínuo do Brasil. Todos aprovaram o cardápio. São 144 anos de história preservados em uma casa que atravessou o Império, a República, diferentes ciclos políticos e profundas transformações da sociedade brasileira. Almoçar no Leite, saborear sua famosa cartola, foi, portanto, mais do que uma experiência gastronômica.
Foi sentar à mesa da própria história do Recife e de Pernambuco. Demos ainda uma passada rápida pela Casa da Cultura, antiga Casa de Detenção, que, após o encerramento de suas funções penitenciárias, foi transformada em um importante centro cultural.

Instituto Ricardo Brennand: memória transformada em patrimônio
À tarde, visitamos o Instituto Ricardo Brennand, um dos mais importantes espaços culturais do Recife.
Criado pelo empresário e colecionador pernambucano Ricardo Brennand, o instituto reúne um extraordinário acervo histórico e artístico, instalado em um complexo que inclui o Castelo São João, a Sala das Armas, a Pinacoteca e a Biblioteca.

Olinda: entre igrejas, ladeiras e memória
À noite, fomos sentir os ares de Olinda.
Caminhar por suas ladeiras, contemplar suas igrejas e observar sua arquitetura colonial é percorrer um dos capítulos mais importantes da formação histórica de Pernambuco.
Olinda guarda em suas ruas e monumentos uma parte essencial da memória brasileira. Ali, a história não está apenas nos museus: está nas pedras das ladeiras, nas fachadas, nos conventos, nas igrejas e na paisagem que se abre para o mar.
Monte dos Guararapes: quando diferentes povos se uniram
No sábado pela manhã, visitamos o Monte dos Guararapes, lugar onde ocorreram as duas batalhas decisivas da Insurreição Pernambucana contra os holandeses: a primeira, em 19 de abril de 1648, e a segunda, em 19 de fevereiro de 1649. As vitórias foram fundamentais para a derrota militar dos holandeses, cuja presença em Pernambuco terminaria definitivamente em 1654. Mas o Monte dos Guararapes representa mais do que uma vitória militar.
Naquele momento, o Brasil ainda não existia como Estado independente.
É justamente isso que torna aquele episódio tão importante para a compreensão da nossa formação histórica. Ali lutaram lado a lado homens de diferentes origens: portugueses e descendentes de portugueses, indígenas, negros e mestiços. Henrique Dias, negro; Felipe Camarão, indígena; João Fernandes Vieira, português radicado no Brasil; André Vidal de Negreiros e outros líderes da insurreição tornaram-se símbolos de uma luta comum.

Igarassu: outros capítulos das origens de Pernambuco
Nossa passagem por Igarassu completou esse mergulho nas origens de Pernambuco.
A visita ao Museu Municipal ajudou a compreender essa história.
A cidade conserva alguns dos mais antigos testemunhos da presença portuguesa e da formação colonial no território pernambucano, entre eles a Igreja de São Cosme e Damião, de 1535 reconhecida como a mais antiga igreja do Brasil, em funcionamento.
Visitar Igarassu, depois de Recife, Olinda e do Monte dos Guararapes, foi como percorrer diferentes capítulos de uma mesma história: a ocupação do território, os conflitos, a presença indígena, a colonização portuguesa e a construção de uma sociedade que, ao longo dos séculos, ajudaria a formar o Brasil.
Amaraji: onde a história deixou de ser apenas história
E então chegamos a Amaraji.
Foi nesse momento que a viagem mudou de natureza.
Até ali, estávamos visitando a história de Pernambuco. Em Amaraji, começamos a reencontrar a minha própria história.
Amaraji não é apenas o lugar onde nasci.
É o lugar onde a minha história começou.

É a terra das cachoeiras, dos engenhos, da cana-de-açúcar, dos caminhos rurais e das primeiras paisagens que meus olhos conheceram. É parte da memória da minha família e da formação de quem eu me tornei.
Por isso, levar uma delegação de 19 pessoas da Bahia até Amaraji teve, para mim, um significado muito especial.
Era como apresentar aos meus companheiros e companheiras, à minha equipe, uma parte da minha própria vida.
Queria que eles conhecessem não apenas a cidade, mas os lugares onde a minha história começou a ser escrita.
Visitamos o Engenho Amorinha, onde está a Pousada Serra Nevada, que nos acolheu; o Engenho Amora Grande, onde conhecemos a barragem que abastece Gravatá; as cachoeiras do Engenho Rio Morto; e a casa-grande do Engenho Sete Ranchos.
Fomos margeando o rio Amaraji, contemplando as paisagens dos engenhos Rinoceronte, Rio Morto, Riacho de Pedras, Não Pensei e Estiva.
Cada lugar parecia guardar uma lembrança.
Mas nenhum deles me tocou tanto quanto o Engenho Estiva.
Foi ali que nasci.

Voltar à Estiva, acompanhado de minha equipe, de minha esposa, companheiros e companheiras, foi uma experiência difícil de explicar.
Era como se o menino que nasceu naquele engenho pudesse, de algum modo, encontrar o homem que a vida fez dele.
A paisagem mudou.
Eu mudei.
O mundo mudou.
Mas certas lembranças permanecem.
E há lugares que não envelhecem dentro de nós.
Estiva é um desses lugares.
Amaraji e a memória dos engenhos
Talvez não exista maneira melhor de compreender Amaraji do que percorrer seus engenhos.
Eles não são apenas construções antigas ou referências geográficas. São parte da história econômica, social e humana da Zona da Mata. Durante gerações, a cana-de-açúcar organizou a vida de uns e poucos e deixou na pobreza a maioria dessas comunidades. O trabalho, as relações sociais, as festas, as dificuldades, as esperanças e os sonhos estavam profundamente ligados aos engenhos.
Foi nesse mundo que minha infância começou.
Por isso, retornar a Amaraji não significou apenas rever lugares.
Significou reencontrar pessoas, paisagens e uma maneira de compreender o mundo que esteve presente na minha formação.
E foi bonito poder compartilhar tudo isso com os baianos que estavam comigo.
Eles não conheciam apenas uma cidade pernambucana.
Estavam conhecendo a terra de onde eu vim.

Uma acolhida que ficará na memória
E Amaraji nos reservou ainda uma das mais bonitas surpresas da viagem.
O prefeito Araújo fez questão de ir pessoalmente à Pousada Serra Nevada para nos receber, acompanhado do vice-prefeito Pimpão de Antônio Inácio e Rosa de Mano do Galo, de Jânio de Dr. Plínio, amigos de infância.
A acolhida foi carinhosa, espontânea e generosa.
Araújo ainda levou até nós o poeta amarajiense Severino, que transformou o encontro em uma verdadeira celebração da memória da cidade.
Com muito humor, Severino declamou versos lembrando os apelidos de diversos amarajienses. A cada verso, uma lembrança, uma gargalhada, uma história.
Depois vieram os poemas sobre os engenhos de Amaraji e sobre o Rio Amaraji.
Foi um daqueles momentos em que a poesia deixa de ser apenas literatura e passa a ser uma forma de preservar a memória de um povo.
O prefeito Araújo acabou conquistando de vez os baianos. Sua hospitalidade, sua espontaneidade e a maneira generosa com que nos recebeu traduziram muito do espírito de Amaraji. Araújo, quero lhe agradecer, de coração, pelo carinho com que você nos recebeu. Você não recebeu apenas um grupo de visitantes.
Recebeu amigos e amigas que chegaram à nossa cidade para conhecer uma parte da minha história.
E fez isso de uma maneira que todos nós vamos guardar com carinho.

O Brasil profundo
Na manhã de domingo, fizemos o circuito das cachoeiras e percorremos a paisagem dos engenhos.
Foi também uma oportunidade de enxergar aquilo que Raimundo meu Ouvidor-Adjunto tão bem chamou minha atenção: o Brasil profundo.
As casas de taipa, os caminhos rurais, a simplicidade da vida e as marcas ainda visíveis da pobreza nos lembram que o desenvolvimento brasileiro foi profundamente desigual.
Muito já foi feito para reduzir as desigualdades sociais e econômicas. Milhões de brasileiros tiveram suas condições de vida transformadas nas últimas décadas.
Mas ainda estamos longe de vencê-las.
É impossível passar por essas comunidades sem pensar que o Brasil moderno convive, lado a lado, com um Brasil que ainda espera direitos básicos, oportunidades e melhores condições de vida.
Talvez essa seja uma das maiores lições de uma viagem como essa:
conhecer a beleza de um lugar não pode nos impedir de enxergar seus problemas.
Amaraji é bonita, generosa e rica em história.
Mas Amaraji também nos lembra que ainda há muito a fazer pelo Brasil profundo.
Uma noite para guardar na memória
Mas a noite de sábado, na Pousada Serra Nevada, no Engenho Amorinha, merece um capítulo à parte.
Havia pessoas preparando o espaço para uma festa de aniversário. Logo em seguida, fomos recebidos por Silveira, proprietário da Pousada Serra Nevada e excelente anfitrião.
Depois chegou um carro trazendo o equipamento de som.
E, para nossa felicidade, chegou também um bode já preparado para o consumo.
Com a fome que estávamos, não sobrou praticamente nada.
Depois veio a música.
Muito forró, muita sofrência e os baianos transformados em coro do cantor.
E ninguém se intimidou com o frio de 18 graus.
Foi uma daquelas noites simples, espontâneas, que acabam se tornando inesquecíveis justamente porque não foram planejadas para entrar na memória.
Talvez seja essa a graça da vida: algumas das melhores lembranças são aquelas que simplesmente acontecem.
De volta às minhas origens
Ainda fizemos uma rápida visita à Usina União e Indústria.
Para mim, aquele lugar não é apenas uma indústria de açúcar e álcool.
Foi o local do meu primeiro emprego.
Mas foi também lugar de trabalho do meu pai e do meu avô.
Há, portanto, uma memória familiar inscrita naquele espaço.
Três gerações ligadas ao trabalho da cana-de-açúcar.
Da mesma terra de onde saíram tantas histórias de luta dos trabalhadores rurais, eu também saí.
E talvez seja por isso que retornar à Usina União e Indústria tenha sido tão significativo: foi como reencontrar uma parte da história da minha família e, ao mesmo tempo, compreender melhor de onde vim.
Visitamos também o Ginásio Agrícola de Escada, onde estudei interno durante quatro anos, de 1970 a 1973.
Voltar à escola onde vivi parte decisiva da adolescência foi outra viagem dentro da viagem.
Ali aprendi não apenas conteúdos técnicos. Aprendi disciplina, convivência, responsabilidade e, sobretudo, comecei a construir o caminho que me levaria à Agronomia e à vida pública.

Uma experiência institucional e humana
Nas conversas que fui mantendo com a equipe, pude constatar que foi uma experiência extraordinária para todos do meu gabinete: Ariana, Dauro, Vanessa, Jéssica, Daniel, Raimundo, Patrícia e Cricia; e os agregados ao gabinete, Bernardo e Marcos. Também nos acompanharam minha esposa, Cecília; a vereadora de Ilhéus, Enilda; Ednei e Rosany; Flávio e Luiza; Victor e Olívia.
Em minha vida pública, sempre valorizei o trabalho de equipe e a participação em congressos, visitas institucionais, viagens e intercâmbios, por serem momentos de formação, mas também de solidificação de laços.
Acredito que conhecimento não se constrói apenas nos gabinetes.
Ele também nasce quando saímos, observamos, conversamos, conhecemos outras experiências e compreendemos realidades diferentes da nossa.
Passamos por cidades que ajudaram a formar o Brasil, por lugares onde se travaram batalhas decisivas, por igrejas e museus que guardam séculos de memória.
Mas também passamos por cachoeiras, engenhos, estradas rurais, pela escola onde estudei, pela usina onde trabalhei e, sobretudo, pelo engenho onde nasci.
E foi Amaraji que deu sentido pessoal a toda essa viagem.
Porque ali não estava apenas o Pernambuco dos livros de história.
Estava o meu Pernambuco.
O Pernambuco da infância.
O Pernambuco dos engenhos.
O Pernambuco da cana-de-açúcar.
O Pernambuco do trabalho do meu pai e do meu avô.
O Pernambuco das primeiras perguntas que fiz sobre a vida.
O Pernambuco de onde saí para estudar, trabalhar, fazer política e, muitos anos depois, chegar ao Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
Talvez seja essa a maior riqueza de uma viagem: descobrir que conhecer um território também é uma maneira de conhecer a si mesmo.
E, no meu caso, voltar a Amaraji foi mais do que visitar uma cidade.
Foi voltar ao começo.
Porque Bahia e Pernambuco não são apenas estados vizinhos.
São territórios ligados pela história, pela cultura, pelas lutas, pelas águas e pelo povo.
Mas, quando penso nesta viagem, sei que dela ficará uma lembrança maior.
Entre tantos lugares visitados, tantos museus, igrejas, rios, monumentos, engenhos e paisagens, haverá sempre um lugar que ocupará um espaço diferente na memória:
Amaraji.
Porque foi ali que tudo começou para mim.

Josias Gomes
Engenheiro agrônomo, ex-deputado federal, devoto do Padim Ciço e, atualmente, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia.
